quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Os painéis segundo Almada Negreiros

Em 1918, José de Almada Negreiros, Amadeo de Souza-Cardoso e Santa Rita Pintor dirigiram os seus passos para a Rua das Janelas Verdes, onde visitaram uma vez mais o Museu Nacional de Arte Antiga. Diante dos “Painéis de São Vicente” juraram um pacto: haviam de estudar aquela obra da pintura do século XV até ao fim das suas vidas. De acordo com o relato de Almada, a jura ainda implicou uma ida ao barbeiro, onde os três se desfizeram das sobrancelhas e do cabelo, rapados com ímpeto radical e modernista. Amadeo e Santa Rita morreriam nesse mesmo ano. O primeiro, em Outubro, vítima da influenza que grassou durante a I Guerra Mundial. O segundo, logo em Abril, vítima de tuberculose. Almada ficou por isso sozinho na tarefa de descobrir o que estava naquelas tábuas. E é esse trabalho de José de Almada Negreiros que o jornalista e investigador António Valdemar vem repor, organizar e contextualizar neste volume que a Assírio & Alvim deu à estampa por estes dias no âmbito da celebração dos 120 anos do nascimento do artista.
 
Esse caminho de Almada na hercúlea tarefa de descobrir o significado dos “Painéis de São Vicente” pode contar-se em mais duas anedotas. Em 1926, dirigiu-se uma vez mais, desta feita com José de Bragança, até então amigo, historiador de arte e polemista, ao Museu Nacional de Arte Antiga. Ali, defronte dos painéis e depois de longa conversa pelo caminho, terão notado que a disposição das tábuas, em dois trípticos, contrariava a perspectiva dos ladrilhos desenhados no chão que os 60 retratados pisam. A polémica sobre os painéis estava então ao rubro, e este achado era, porventura, o mais importante de todos os avanços de uma investigação com poucos resultados. José de Bragança terá sido mais lesto na apresentação pública da novidade e, em conferência na Sociedade de Geografia, anunciou ter sido ele o autor de uma nova proposta que reorganizava a ordem dos seis painéis (e que é aquela que subsiste até hoje), transformando-os num políptico. A reacção de Almada, que reivindicava para si a descoberta acusando o amigo de traição, chegou na forma de cartas e artigos publicados no “Diário de Notícias” — a arena predilecta para as disputas sobre a questão dos painéis nos anos 20. Mas, para lá das polémicas publicadas na imprensa e das discussões entre os dois na Brasileira, perante farta e distinta plateia, há também relatos de uma cena de pancadaria ali pelo Chiado.

“Almada — Os Painéis, a Geometria e Tudo” é não só um erudito repositório de quase todos os textos de Almada sobre o assunto (falta apenas “A Chave Diz”) mas também o lugar onde se contextualiza e enquadra toda a sua abordagem, quer na introdução produzida por António Valdemar quer no prefácio assinado por José Manuel dos Santos. Maior interesse encontra-se ainda nos apêndices documentais que figuram nas últimas páginas (e onde avultam as cartas de monsenhor Elviro dos Santos ao “Diário de Notícias”, de onde sobressai a descrição de os painéis terem sido encontrados como quatro quadros, tal como havia sido reportado por Joaquim de Vasconcelos no texto inaugural publicado em 1895 em “O Comércio do Porto”).

A "pièce de résistance" desta colectânea de textos encontra-se porém nas oito entrevistas a José de Almada Negreiros realizadas pelo próprio António Valdemar para o “Diário de Notícias”, onde foram publicadas em Junho e Julho de 1960. A estas foi ainda acrescentada uma última, que se manteve inédita até ser encontrada no espólio do pintor. É aqui, nestas conversas que sucederam em roda livre, que Almada descreve todo o processo que levou a geração de Orpheo a interessar-se pelos painéis e como utilizou a geometria — uma proporção harmónica ou número de oiro ou o “Cânone”, como lhe chama — para encontrar “o novo no antigo”, à maneira do preconizado por Delacroix. Manejando essa relação 9/10 que se revela, por exemplo, no ângulo de 26 graus que a vara do santo produz com a sua perpendicular, e que mais tarde, em 2003, também seria explorada por Paulo-Guilherme d’Eça Leal em estudo similar, Almada Negreiros chega à conclusão de que os painéis são parte de um retábulo concebido para a Capela do Fundador, no Mosteiro da Batalha, apesar de nunca aí terem estado. Desse retábulo faziam parte não apenas as tábuas do políptico mas também as dos quadros dos santos, igualmente atribuídos a Nuno Gonçalves (São Pedro, São Teotónio, São Paulo e santo franciscano), as duas pinturas de São Vicente (atado a uma coluna e na cruz em aspa), duas outras de que não se conhece o paradeiro e ainda o “Ecce Homo”, que Almada considerava a pintura mais bela do mundo e que é o centro de todo este conjunto. Todas estas obras se encontravam, à época, na mesma sala do Museu de Arte Antiga. Curiosamente, hoje, só os “Painéis de São Vicente” podem ser apreciados pelo público, estando os outros quadros em salas interditas aos visitantes.

É um longo e empenhado trabalho de Almada, com alguns erros que hoje já se podem reconhecer (o “Ecce Homo” terá sido pintado no século XVI e portanto não é contemporâneo dos painéis), mas que tem a particularidade de tentar encontrar uma regra, um “cânone”, que está igualmente representado no tesouro de Delfos, nos frescos de Creta, no vaso de Suse, no melhor da arte bizantina, árabe, hebraica, romântica, gótica ou moderna. Um caminho que se distinguiu, e que distinguia Almada, daquele que levou a esmagadora maioria dos outros historiadores de arte ou meros curiosos pela questão dos painéis em busca de verem o seu nome inscrito na controvérsia que os envolve. Ao contrário da procura de um miraculoso documento que poderia deslindar toda a verdade, Almada Negreiros investiu na geometria que neles estaria inscrita. Para ele, os documentos sempre foram os próprios painéis.

Resta então uma terceira e última anedota. Em 1958, o escultor Leopoldo de Almeida, o arquitecto José Cortez e o próprio Almada terão regressado ao Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha. Na Capela do Fundador, Cortez terá apontado o terço poente da parede norte, e Almada exultou: “É aqui.” “Sem mais, abraçámo-nos os três”, conta numa das entrevistas. Era o lugar perfeito para os 15 painéis de um retábulo com 12 metros de altura que, nas suas elucubrações, concedia unidade a um todo. Nesse particular, este livro é também um valioso documento, por reunir textos vários que se encontravam dispersos e que vêm revelar-se representantes de uma tese com poucos pontos comuns senão mesmo contrária à oficial, publicada por José de Figueiredo (republicano, director do Museu de Arte Antiga) em 1910 e que dá Nuno Gonçalves como autor, a veneração de São Vicente como tema e a Sé de Lisboa como o seu lugar eleito. Almada não aceita a autoria de Nuno Gonçalves (nos textos são sempre tratados como sendo os “painéis chamados de Nuno Gonçalves”) e identifica o santo como o infante Dom Fernando (devido a duas iniciais que terá encontrado na dalmática). A esse respeito, a sua posição encontra-se bastante mais próxima daquela professada desde 1925 por José Saraiva. Almada não ousa, contudo, atribuir os painéis a um artista estrangeiro, aceitando nesse ponto uma doutrina comum e que data desde os alvores nacionalistas da República, tendo chegado incólume aos dias de hoje.


In:" http://expresso.sapo.pt/cultura/2015-09-26-Os-paineis-segundo-Almada-Negreiros"

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Voando para ti



Poema inspirado no quadro ( Voando para ti ) de Domingos Magalhães de Oliveira

Voando para ti.
Voando para ti com asas de anjo e olhos embriagados de céu.
Não importa se as minhas estradas são feitas de tempo
De vento ou se desabo no abismo.

Que sei eu deste mistério de querer voar para ti?
Numa rota onde a minha alma quase se perde de mim?
Encho a noite de estrelas e no deslumbramento da ascensão
escuto as canções que tens no peito...

Talvez essa melodia adormeça a escuridão que quer devorar estas asas
Quando insistem em levar o teu coração num voo mais alto.
Que sei eu deste mistério de querer voar para ti?

Autor: Olga Florência

sábado, 21 de junho de 2014

Celebração Solstício Verão


Celebração Solstício de Verão na Quinta da Regaleira - Sintra, Visita e Banquete de Solstício.

Escultura - Domingos Magalhães de Oliveira
Pintura - Oscar Alves
Música - Hugo Claro
Canto - Sofia Claro - Hugo Claro
Poesia - David Zink, Eladio Climaco, Helena Ramos, Maria De Lurdes Nogueira
Fotografia - Olga Florência


terça-feira, 17 de junho de 2014

Comemoração Solstício Verão 2104

 

21 Junho (sábado) - Quinta da Regaleira - Sintra
18h - Visita Guiada - 20H - Banquete Solstício

ARTE com mostra de pintura e escultura de Oscar Alves e Domingos Oliveira; POESIA por João David Zink e Lurdes Nogueira; MÚSICA Com Hugo Claro e Sofia Sousa Claro.

Visita Valor: 10,00€ - Banquete: 15,00€ - Visita e Banquete Valor: 25,00€
Crianças até 9 anos - Gratuito - Jovens até 18 anos - 1/2 Valor


INSCRIÇÃO OBRIGATÓRIA: Tlm. 918 959 854 0u vitriol.portugal@gmail.com

SOLSTITIUM
Por instantes, duas vezes em cada doze meses, o Sol alcança a sua maior declinação elíptica – e parece suspender-se em luz pura. Nesses dois dias mais longos do ano se marca o início dos ciclos maiores da Mãe-Natureza, celebrados desde que o Homem pôde conhecer e medir o seu lugar no Universo.
Desde a mais remota Antiguidade assinalamos, sob a forma de alegorias míticas e festas telúricas, a abertura gloriosa das Portas Solsticiais. E a própria etimologia latina do SOLSTITIUM nos remete para esse breve momento em que o Astro se sustém, grande e jorrando luz, franqueando os seus portais a quem ousa olhá-lo de frente.
Uma das faces do dualismo primordial do preto e do branco, expresso também nas duas faces do deus Janus, o Grande Arquitecto bifásico, está perfeitamente figurada na festa dos Fogos de S. João de Verão, o Solstício de Câncer, personificado no Baptista, e que assinala a travessia da Porta dos Homens, a abundância e a plenitude do que é perfeito.
O mesmo Sol que ilumina o Ser humano, neste momento de transição das trevas para a claridade, é o mesmo que faz germinar na terra os frutos. Por isso, nesta cerimónia, celebramos também o trigo, o vinho e o azeite – cada um na sua carga simbólica própria e todos como representação da capacidade geradora, desse início em que da semente brotam os primeiros rebentos que hão-de crescer, frutificar e multiplicar-se.

VITRIOL – ASSOCIAÇÃO DIVULGAÇÃO LÍNGUA CULTURA LUSÓFONA

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Solstício de Inverno 2013 - Quinta da Regaleira - Sintra


No momento em que o Homem se junta à volta do Fogo, realizou-se a celebração numa comunhão de ideais com a participação: música Hugo Claro e Sofia Sousa Claro; poesia Maria Lurdes Nogueira, João David Zink, Olga Florência, José Paulo Sousa, Júlia Pires, António M. Ferro, Margarida Canto, João Camacho ... Saudando o RENASCIMENTO em todos Nós.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Celebração Solstício de Inverno 2013


Mais um Solstício de Inverno, em que viveremos a noite mais longa do ano. Como que num recolhimento uterino desejado, o Sol afastou-se do hemisfério norte. O Inverno é a época para semear. 

No momento em que o Homem se junta à volta do Fogo, realizou-se a celebração numa comunhão de ideais com a participação: música Hugo Claro e Sofia Sousa Claro; poesia Maria Lurdes Nogueira, João David Zink, Olga Florência, José Paulo Sousa, Júlia Pires, António M. Ferro, Margarida Canto, João Camacho.

Saudamos o Solstício fecundo;
Saudamos a Luz;
Abrimos os nossos corações;
Levantamos as nossas mãos;


Sobe, chama, sobe!

Saudamos o Sol;
Saudamos a Vida;
Saudamos a Origem!


VITRIOL - ASSOCIAÇÃO DIVULGAÇÃO LÍNGUA CULTURA LUSÓFONA

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Invictus


Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado
Agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável

Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo e nem me desespero
Sob os duros golpes do acaso
Minha cabeça sangra, mas continua erguida

Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra.
Mas a ameaça dos anos,
Me encontra e me encontrará, sem medo.

Não importa quão estreito o portão
Quão repleta de castigo a sentença,
Eu sou o senhor de meu destino
Eu sou o capitão de minha alma.

Poema de William Ernest Henley, escrito em 1875, poema que Mandela lia todos os dias na cadeia e que lhe serviu de inspiração para continuar cada dia. 
 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Conferência e Roteiro: Os Painéis S. Vicente de Fora


Ciclo de Conferências do Monte da Lua: «Os Painéis de S. Vicente de Fora: a iconografia em questão» 


Os «Painéis de S. Vicente de Fora» que hoje se encontram no Museu Nacional de Arte Antiga, ainda que não suscitem grandes divergências no que respeita a considerações de ordem estética, sendo consensual o fascínio que exercem, são, no entanto, o objecto da maior controvérsia na historiografia do património artístico português, aquela que já fez correr mais tinta e despertou maiores paixões, e que apesar disso, volvido mais de um século da sua redescoberta, se encontra longe de estar definitivamente solucionado.

A presente abordagem, incidirá sobre os grandes pontos de divergência: a disposição dos painéis e o destino iniciais, o seu significado, a identificação da personagem central e demais figuras, as diferentes teses («vicentina», «catarinista», «fernandina», «cardinalícia», «crispiniana», «carlista» e dualistas destas), a autoria, o(s) patrocinador(es), e a data de execução. Serão demonstrados os resultados da própria investigação do conferencista, e à luz desta apontados novos caminhos a percorrer.

Autor: João David Zink, historiador de arte

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A calçada portuguesa

Apesar de os pavimentos calcetados terem surgido no reino por volta de 1500, a calçada à portuguesa, tal como a entendemos hoje, foi iniciada em meados do Séc. XIX. A chamada “calçada à portuguesa”, em calcário branco e negro, caracteriza-se pela forma irregular de aplicação das pedras. Todavia, o tipo de aplicação mais utilizado hoje, desde meados do Séc. XX, designado por “calçada portuguesa”, é aplicado com cubos, e tem um enquadramento diagonal. Calçada à portuguesa, e calçada portuguesa são coisas distintas.


A calçada começou em Portugal de forma direrente da que hoje é, mais desordenada. São as cartas régias de 20 de Agosto de 1498 e de 8 de Maio de 1500, assinadas pelo rei D. Manuel I, que marcam o início do calcetamento das ruas de Lisboa, mais notavelmente o da Rua Nova dos Mercadores (antes Rua Nova dos Ferros). Nessa época, foi determinado que o material a utilizar deveria ser o granito da região do Porto, que, pelo transporte implicado, tornou a obra muito dispendiosa. O objetivo seria que a Ganga, um rinoceronte branco, ricamente ornamentada, não sujasse de lama com o calcar das suas pesadas patas, o numeroso e longo cortejo, com figurantes aparatosamente engalanados com as novas riquezas e adornos vindas do Oriente, que saía à rua em pleno Inverno, aquando do seu aniversário a 21 de Janeiro. A comitiva ficava manifestamente suja, daí a decisão de calcetar as ruas do percurso como forma de dar resposta ao problema. Sendo a única vez no ano em que o rei se mostrava à população vem daí a explressão: “Quando o rei faz anos…”

O terramoto de 1755, a consequente destruição e reconstrução da cidade lisboeta, em moldes racionais mas de custos contidos, tornou a calçada algo improvável à época. Contudo, já no século seguinte, foi feita em Lisboa no ano de 1842, uma calçada calcária, muito mais próxima da que hoje mais conhecemos e continua a ser utilizada. O trabalho foi realizado por presidiários (chamados “grilhetas” na época), a mando do Governador de armas do Castelo de São Jorge, o tenente-general Eusébio Pinheiro Furtado. O desenho utilizado nesse pavimento foi de um traçado simples (tipo zig-zag) mas, para a época, a obra foi de certa forma insólita, tendo motivado cronistas portugueses a escrever sobre o assunto. Em O Arco de Sant’Ana, romance de Almeida Garrett, também a calçada seria referida, tal como em Cristalizações, poema de Cesário Verde. A chamada “calçada à portuguesa”, conforme a conhecemos, em calcário branco e negro, foi empregada pela primeira vez em Lisboa, na encosta do castelo, no ano de 1842.

Após este primeiro acontecimento, foram concedidas verbas a Eusébio Furtado para que os seus homens pavimentassem toda a área da Praça do Rossio, uma das zonas mais conhecidas e mais centrais de Lisboa, numa extensão de 8.712 m². A calçada portuguesa rapidamente se espalhou por todo o país e colónias, subjacente a um ideal de moda e de bom gosto, tendo-se apurado o sentido artístico, que foi aliado a um conceito de funcionalidade, originando autênticas obras-primas nas zonas pedonais. Daqui, bastou somente mais um passo, para que esta arte ultrapassasse fronteiras, sendo solicitados mestres calceteiros portugueses para executar e ensinar estes trabalhos no estrangeiro.

A calçada portuguesa é a herdeira das pavimentações romanas e a expressão portuguesa dessa tradição. O conceito de pavimentação está aliado a uma certa mentalidade romântica, onde se afirma o valor do nacionalismo, que se vai expressar na busca do passado de signos, factos e mitos considerados marcos fundamentais da história de Portugal e da construção da identidade nacional.
São utilizados por isso na calçada portuguesa padrões e elementos decorativos tipicamente portugueses, relacionados com actividades sócio-económicas, peixes, frutos, cereais, animais, artesanato e sobretudo o período dos Descobrimentos marítimos onde pontificam caravelas, sereias, cordas, conchas, ondas do mar, estrelas e esferas armilares.

Em 1986, foi criada uma escola para calceteiros (Escola de Calceteiros da Câmara Municipal de Lisboa), situada na Quinta Conde dos Arcos. Da autoria de Sérgio Stichini, em Dezembro de 2006, foi inaugurado também um monumento ao calceteiro, sito na Rua da Vitória (baixa Pombalina), entre as Rua da Prata e Rua dos Douradores.


Autor: A. Pires

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Crónica de um percurso

Ainda perduram algumas carreiras de eléctricos em Lisboa, algumas mais modernas (com eléctricos de última geração e linhas reconstruídas) e também as mais antigas, e finalmente a 28, do Martim Moniz aos Prazeres. Destas carreira sobreviventes de uma rede que outrora chegava a toda a parte, a mais longa e complicada é a 28, cujo actual percurso data de 1985, mas que já era possível fazer antes, com outras denominações. Há vários aspectos muito interessantes nesta carreira, que a tornam muito procurada por alfacinhas, portugueses e turistas.

Um é o sabor de andar de eléctrico à moda antiga, lentamente, aos encontrões nas curvas, com o chiar das rodas nos carris. Outro é o descanso, para quem não tenha pressa, de um circuito que, feito em outro qualquer meio de transporte, é um verdadeiro suplício. Finalmente, o percurso, pelos locais onde passa, é um verdadeiro passeio pela vida de Lisboa, desde a fundação até aos nossos dias - ou seja, oito séculos de história paulatinamente apreciados das altas e arejadas janelas do eléctrico, condensados numa hora. 

Foi esta última qualidade que levou o nosso mais competente e interessante historiador de Arte, José-Augusto França, a fazer uma narrativa da viagem. Como ele salienta, no prefácio de "28 - Crónica de Um Percurso", o amarelinho "passa por uma dez igrejas, oito conventos que foram, uns vinte palácios e palacetes que são ou já não são, meia dúzia de prédios de destaque, seis jardins e uma dezena e meia de estátuas, dez teatros e cinemas de que só restam dois..."

Assim embalados, lá vamos pelo 28! 
O percurso pode começar no Largo do Martim Moniz ou no largo em frente ao cemitério dos Prazeres, em Campo de Ourique. Vamos iniciar da base mais antiga, o que permite um certo sentido cronológico.

O Martim Moniz - a mais histórica das chagas da capital - já foi consertado, uma necessidade que se fazia sentir há séculos, mas cujo arranjo certamente continua a desagradar a muita gente. 
Seguimos por ruas, apontando a quem se refere o nome de muitas delas - heróis esquecidos de outras guerras - e salientando uma ou outra construção interessante, que aqui nem há muitas. 
Com efeito, tanto o malfadado largo , como a Rua da Palma e a sua continuação, a Avenida Almirante Reis, nunca conseguiram ser nem bonitos, nem agradáveis, nem particularmente interessantes. São aquelas áreas de maldição que todas as cidades têm, mesmo quando já passaram por séculos de gostos, estilos, destruições e reconstruções. 
Mas o 28 logo depois muda para a rua Maria Andrade (uma das filhas do pato bravo que construiu aqueles quarteirões, vai para mais de um século, ficamos a saber) e começa a subir para paragens mais interessantes.

Até à Graça, e mesmo depois dela, é o século XIX que impera, com monumentos maçónicos e operários, apesar de ser zona habitada á muito mais tempo; contudo logo a seguir, pela Rua das Escolas Gerais (o que seriam?), chega-se à Graça e ao berço da nacionalidade. É o Castelo, é a Sé (mandada fazer por D. Afonso Henriques, logo a seguir à tomada da cidade, no terreno de uma mesquita) são os palácios medievais depois tornados conventos, depois prisões, depois tantas outras coisas. 
O Limoeiro, por exemplo, foi Paço dei Rei D. Fernando, morada de D. Pedro e D. Inês, refúgio de D. Leonor Teles e perdição do Conde Andeiro, quase desapareceu no Terramoto, tornou-se convento, depois prisão e actualmente, limpo e depurado, é... Academia!

O 28 passa atravessa então a Baixa, e estamos no período pombalino. Depois, subindo a Calçada de São Francisco (também pombalina) cruza o Chiado, onde há memórias oitocentistas (o antigo Hotel Bragança, em cujo restaurante se deleitavam os perdidos da vida), símbolos do Estado Novo (a PIDE), e, realmente, um pouco de todas as épocas. 
O mesmo se pode dizer do Camões (a terceira grande estátua levantada em Lisboa, depois do D. José e do D. Pedro IV) e mergulha nas profundezas de S. Bento - a Assembleia da República, que já foi convento, o Poço dos Negros, onde eram atirados a um poço, mais palácios, o primeiro centro de Higiene Pública da cidade, hoje desaparecido, a Faculdade de Economia, a Emissora Nacional...

As referências são sempre múltiplas e de muitas épocas, numa cidade que se vem construindo e destruindo sucessivamente ao vento das catástrofes naturais e aos ventos das histórias, das fortunas, das viradeiras. 
Pausa obrigatória na Estrela, a única loucura da rainha louca, com o seu jardim já quase republicano - e depois é a zona da década de 30 e 40 e da pequena burguesia pré e pró-salazarenta, Campo de Ourique. 
Quanto ao cemitério, a leitura dos jazigos, campas e estilos funerários é, em si, toda uma outra leitura da mesma História.

Como se adivinha nesta breve resenha, há pano para muitas mangas, então, convém não esquecer, pode-se mesmo apanhar o 28 e viver tudo isto. 

Autor: A. Pires
In "28 Crónica de um percurso" de José-Augusto França

sábado, 19 de outubro de 2013

Centenário Nascimento Vinicius de Moraes

Eu vi a estrela polar
Chorando em cima do mar
Eu vi a estrela polar
Nas costas de Portugal! 

Desde então não seja Vênus
A mais pura das estrelas
A estrela polar não brilha
Se humilha no firmamento
Parece uma criancinha
Enjeitada pelo frio
Estrelinha franciscana
Teresinha, mariana
Perdida no Pólo Norte
De toda a tristeza humana.

Rio de Janeiro , 1946 

Vinicius de Moraes nasceu em 1913 no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro, filho de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, funcionário da Prefeitura, poeta e violinista amador, e Lídia Cruz, pianista amadora. Vinícius é o segundo de quatro filhos, Lygia (1911), Laetitia (1916) e Helius (1918). Mudou-se com a família para o bairro de Botafogo em 1916, onde iniciou os seus estudos na Escola Primária Afrânio Peixoto. Desde então, já demonstrava interesse em escrever poesias. Em 1922, a sua mãe adoeceu e a família de Vinicius mudou-se para a Ilha do Governador, ele e sua irmã Lygia permanecendo com o avô, em Botafogo, para terminar o curso primário.
Vinicius de Moraes ingressou em 1924 no Colégio Santo Inácio, de padres jesuítas, onde passou a cantar no coral e começou a montar pequenas peças de teatro. Três anos mais tarde, tornou-se amigo dos irmãos Haroldo e Paulo Tapajós, com quem começou a fazer suas primeiras composições e a se apresentar em festas de amigos. Em 1929, concluiu o ginásio e no ano seguinte, ingressou na Faculdade de Direito do Catete, hoje Faculdade Nacional de Direito (UFRJ). Na chamada "Faculdade do Catete", conheceu e tornou-se amigo do romancista Otavio Faria, que o incentivou na vocação literária. Vinicius de Moraes graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1933.

Três anos depois, obteve o emprego de censor cinematográfico junto ao Ministério da Educação e Saúde. Dois anos mais tarde, Vinicius de Moraes ganhou uma bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford. Em 1941, retornou ao Brasil empregando-se como crítico de cinema no jornal "A Manhã". Tornou-se também colaborador da revista "Clima" e empregou-se no Instituto dos Bancários. 
No ano seguinte, foi reprovado em seu primeiro concurso para o Ministério das Relações Exteriores (MRE). Em 1943, concorreu novamente e desta vez foi aprovado. Em 1946, assumiu o primeiro posto diplomático como vice-cônsul em Los Angeles. Com a morte do pai, em 1950, Vinicius de Moraes retornou ao Brasil. Nos anos 1950, Vinicius atuou no campo diplomático em Paris e em Roma, onde costumava realizar animados encontros na casa do escritor Sérgio Buarque de Holanda. 
No final de 1968 foi afastado da carreira diplomática tendo sido aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional Número Cinco.

O poeta estava em Portugal, a dar uma série de espectáculos, alguns com Chico Buarque e Nara Leão, quando o regime militar emitiu o AI-5. O motivo apontado para o afastamento foi o seu comportamento boêmio que o impedia de cumprir as suas funções. Vinícius foi anistiado (post-mortem)pela Justiça em 1998. A Câmara dos Deputados brasileira aprovou em Fevereiro de 2010 a promoção póstuma do poeta ao cargo de "ministro de primeira classe" do Ministério dos Negócios Estrangeiros - o equivalente a embaixador, que é o cargo mais alto da carreira diplomática. A lei foi publicada no Diário Oficial do dia 22 de junho de 2010 e recebeu o número 12.265.

Vinicius começou a se tornar prestigiado com sua peça de teatro "Orfeu da Conceição", em 25 de setembro de 1956. Além da diplomacia, do teatro e dos livros, sua carreira musical começou a deslanchar em meados da década de 1950 - época em que conheceu Tom Jobim (um de seus grandes parceiros) -, quando diversas de suas composições foram gravadas por inúmeros artistas. Na década seguinte, Vinicius de Moraes viveu um período áureo na MPB, no qual foram gravadas cerca de 60 composições de sua autoria. Foram firmadas parcerias com compositores como Baden Powell, Carlos Lyra e Francis Hime. 
Na década de 1970, já consagrado e com um novo parceiro, o violonista Toquinho, Vinicius seguiu lançando álbuns e livros de grande sucesso.

Na noite de 9 de julho de 1980, acertando detalhes com Toquinho sobre as canções do álbum "Arca de Noé", Vinicius alegou cansaço e que precisava tomar um banho. Na madrugada do dia seguinte Vinicius foi acordado pela empregada, que o encontrara na banheira de casa, com dificuldades para respirar. Toquinho, que estava dormindo, acordou e tentou socorrê-lo, seguido por Gilda Mattoso (última esposa do poeta), mas não houve tempo e Vinicius de Moraes morreu pela manhã.

 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Poema Papiniano Carlos



Notável poesia de Papiniano Carlos lida aquando do Congresso Republicano de 1956.
Que ajude a inspirar os Republicanos vivos no exemplo dos Republicanos mortos.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Uma bofetada na República

Os Centros Republicanos sempre comemoraram o 5 de Outubro. Sempre junto à estátua de António José de Almeida, quer durante a Primeira República, quer na Ditadura do Estado Novo e agora, ao longo da Segunda República. Mas sempre, arrostando durante a Ditadura com cargas policiais e selváticas.
Agora, acabou-se com o feriado do 5 de Outubro, curiosamente num tempo em que o Sr. Presidente da República louva esta e os seus ideais fazendo apelo à ética Republicana. Os dois anteriores Presidentes, Mário Soares e Jorge Sampaio, também o fizeram e com forte convicção.
Ora, quando os nossos Presidentes assim procedem, a República resulta em exemplo estimulante para os comportamentos que os actores políticos nem sempre, como tal, têm assumido.
Na Ditadura, foi a “República” que aglutinou o combate politico com as intervenções sacrificadas de muitos Republicanos. Os Congressos Republicanos de Aveiro foram disso exemplo notável. A República foi nesses difíceis tempos a voz, o coração e a coragem da Oposição.

O Governo, da República, decidiu extinguir o feriado do 5 de Outubro e ao fazê-lo, pelo menos, está a esquecer os seus fundadores republicanos, já mortos, companheiros de quem nos lembramos agora, Mário Montalvão Machado, Artur Santos Silva, José Augusto Seabra, Artur Andrade, Artur da Cunha Leal, Olívio França, Nuno Rodrigues dos Santos, entre outros.
Importa dizer não, por Decência.

Talvez a notável poesia de Papiniano Carlos lida aquando do Congresso Republicano de 1956,
ajude a inspirar os Republicanos vivos no exemplo dos Republicanos mortos:

“Que vos dizer, ó companheiros mortos,

Ó mestres queridos, ilustres ou anónimos?
Que palavras incolores, que rosa desfolhada
para dar-vos? Não, a terra não ficou
por semear, nem o navio abandonado,
a tarefa inacabada.
 
Mesmo que vós nos dissésseis: “Estamos mortos!
Que esperais de nós ainda?”, nós sabemos
que é a vosso lado que atravessaremos as sombras
destes terríveis tempos. Convosco viajaríamos
através da morte, da peste e dos infernos
se preciso fosse. A liberdade escreve-se
com sangue, estrelas e raízes, e é no meio
das trevas e dos cárceres que floresce

Assim vós a amastes e nos ensinaste.

Assim a amamos e, em seu nome,
havemos de chegar ao fim
da áspera jornada:

Com o exemplo da vossa união,
com vossa fé, vosso amor ao Povo, vossa verdade,
vosso navio,
vossa inesquecível voz.”


Viva a República!

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Conferência Fernão Mendes Pinto


No âmbito do Ciclo de CONFERÊNCIAS DO MONTE DA LUA, a VITRIOL Associação realizou a 19.ª Conferência com o tema - FERNÃO MENDES PINTO: PEREGRINANDO no LABIRINTO do ORIENTE, por ANTÓNIO M. FERRO.

Antecipando o 4.º Centenário da publicação de Peregrinação, que ocorre no próximo ano, ensaia-se nesta comunicação uma leitura desse texto fundamental da Cultura, da Literatura e da Língua Portuguesa, tendo como novelo de Ariana e bússola os conceitos de mito e desmitificação, biografismo e autobiografismo, Portugal e os portugueses, História e Utopia, verdade e fantasia, viagem e milagrismo, e outros vários rumos e navegações, ora “pelo rio abaixo” ora “pelo rio acima”. 

Autor: António M. Ferro
Mestre em Filosofia pela Universidade de Lisboa e Doutor em Linguística Românica pela Universidade de Bucareste.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Peregrinando II

Saudades da minha gueixa
Como sal dissolvo-me na memória de ti
antiquíssimo alimento de minha alma perdida
e sorvo avidamente a minha cicuta diária
na inquietude longa e dura e vária
que a tua ausência traz ao meu desfazer-se
dia a dia e navegar
Meu pão nosso de cada dia
e minha querida navegação antiga
em tua ausência vou amiga e Circe
pelo rio acima

e pelo rio abaixo

Autor: António M. Ferro

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Peregrinando - I

Peregrinando paciente impaciente
o pobre de mim! Em minha vela vou
por este rio acima
por este rio abaixo
As vezes mísero às vezes nobre
Ora valente ora covarde enorme ingente
As vezes grande às vezes baixo
Quem sou se faz deste indo e navegar
assim tão incerto e tão contrário
Às vezes blasfémias ás vezes orações
Entre naufrágios e milagres
bombardas golpes tempestades
feridas e monções
por este rio acima
por este rio abaixo vou
 

E rumando tesouros e feridas e ilusões
que quão incertas são as cousas da China! 

Sou imprevisto e vário
e ladrão embaixador avaro soldado
mercador falsário cruel bondoso ruim
generoso escravo mísero mas corsário
de mim sempre. Que escrevo?
Mas cossairo de mim sempre!

Autor: António M. Ferro

terça-feira, 30 de julho de 2013

Este é tempo de sim


Este é tempo de sim
Tempo de cada um por si e para si
Carreira ordem unida orelha murcha
Vida vidinha medo miudinho
Tempo de chefe e chefezinho
Este é tempo outra vez de Portugal em inho
Eis senão quando vem Fernando Valle
Com seu cabelo branco e seu sorriso
Traz consigo a velha trilogia
Liberdade (diz ele) 

E há nos seus olhos
Uma bandeira a conduzir o povo
Igualdade (diz ele) 

E chegam guerrilheiros
Com suas armas e sua festa
Garrett desembarca no Mindelo
Antero fala nas Conferências do Casino
Tocam sinos
E chegam carbonários
Sonhadores
A Rotunda o Relvas a República
Fraternidade (diz) E aí estamos nós
De novo de mão na mão
Prontos para o combate
E para o não  

Ouviremos o Torga
Seremos contra isto para ser por isto
Resistir é possível
Pela esperança lúcida
É possível começar de novo
 

Porque ainda há Fernando Valle
Algures em Coimbra ou Arganil
Há ainda um velho capitão do povo
Com ele é sempre Portugal
E é sempre Abri
l.

Na data de nascimento - 30 de Julho, poema de Manuel Alegre dedicado à memória de Fernando Valle


quinta-feira, 18 de julho de 2013

Caminho


Longe é a noite para aquele que vela
Longe é o caminho para aquele que está fatigado
Longe é a série para os ignorantes...

Caminho, poema de António Albino Machado


quinta-feira, 4 de julho de 2013