quinta-feira, 31 de maio de 2012

Mosteiro dos Jerónimos


Do local onde actualmente se encontra o Mosteiro dos Jerónimos, como vulgarmente é conhecido, partiram as primeiras naus para os empreendimentos marítimos, nomeadamente para a Índia e Brasil. A praia do Restelo abria-se em pequena enseada, constituindo um bom local de abrigo de barcos. Neste porto, a actividade era extensa, uma vez que era um local de artesanato e comércio, constantemente visitado por mareantes. A população que ali morava não dispunha de cemitério, e faltava aos fiéis um lugar de culto. Foi neste local que o Infante D. Henrique mandou erguer uma igreja e um pequeno cenobício da Ordem de Cristo, para prestarem então assistência espiritual aos mareantes e à população ai fixada.
D. Manuel I, imediatamente depois de ser coroado em 1495, ordenou a edificação de um mosteiro neste mesmo lugar, 46 anos após a morte do Infante D. Henrique. Os cavaleiros da Ordem de Cristo cederam então a igreja, casas e terrenos à Congregação dos Jerónimos com a obrigação destes celebrarem missa diária em sufrágio do infante D. Henrique, e depois, do rei D. Manuel I e de seus sucessores. Na igreja monástica queria ainda o rei ser sepultado.

O Mosteiro dos Jerónimos, obra fundamental da arquitectura manuelina, teve o risco inicial de Boitaca (1502), que lançou os fundamentos da Igreja e do Claustro, e cuja campanha de obra inclui o arranque do portal principal, tendo igualmente deixado marca indelével neste monumento mestres-pedreiros-arquitectos, como João de Castilho (c.1475-1552), Diogo de Torralva (c. 1500-1566) e Jerónimo de Ruão (1530-1601).
As razões que teriam levado D. Manuel I a substituir a Ordem de Cristo pelos Monges Jerónimos integraram--se decerto numa estratégia política ou jogo de correlação de forças. A predilecção de D. Manuel I pelos frades Jerónimos ficaria bem assinalada no grande apoio concedido a diversas fundações.
Além de Santa Maria de Belém, D. Manuel I e D. João III (1521-1616) acrescentariam novas casas à expansão dos Jerónimos. Esta instituição fundara-se no século XIV, em Itália, aglutinando grupos dispersos de eremitas inspirados nos textos do asceta S. Jerónimo (séculos IV-V), um dos quatro Doutores da Igreja Ocidental. Vieram os primeiros Jerónimos para a Península Ibérica ainda no século XIV e entre nós beneficiaram do apoio de D. João I, que para eles comprou a quinta da Penha Longa e mandou ali erguer um mosteiro de onde sairia o grupo que deu vida ao de Belém. Notabilizaram-se os frades de S. Jerónimo por um extraordinário labor cultural, registando a nossa História nomes de grandes mestres dessa Ordem em diversos campos.
D. Manuel I doou ao mosteiro em 1499 o vultoso benefício da cobrança da vigésima parte do ouro que viesse da Guiné, a «vintena da pimenta», e das especiarias e pedrarias da Índia, caudal que não só sustentaria desafogadamente a comunidade e as suas iniciativas culturais e benefecientes, como, de imediato, deu para contratar os melhores mestres e custear toda a despesa da edificação.
D. Manuel I, entretanto, ia alterando o programa original da obra, querendo agregar ao mosteiro uma residência régia ocasional. A morte do rei em 1521 terá afastado essa ideia. Uma outra função, empresarial, seria a de armazém da provisão de navios a instalar na extensa galeria do piso térreo da ala poente, de arcaria aberta a sul. D. Manuel I quis também fazer da igreja panteão real, para si e para sua linha sucessória, tornando-se, em consequência, apenas permitidos enterramentos régios no interior do templo.
Obras posteriores vieram modificar o edifício. D. Catarina, viúva de D. João III, mandou demolir a capela-mor, por ser pequena, e construir a que conhecemos. Nas épocas de D. Sebastião, dos Filipes de Espanha, de D. Pedro II e de D. João V, foram introduzidos novos elementos de modernização, especialmente decorativa.

Em 1584, Filipe II retirou ao Mosteiro dos Jerónimos o citado rendimento dos 5% sobre alguns produtos ultramarinos, o que conduziu ao início das dificuldades financeiras. Estas, continuariam no tempo de D. João V, decaindo a importância do mosteiro e acentuando-se a carência de meios materiais. Os problemas conflituosos agravaram-se com o governo do Marquês de Pombal, levando os frades a buscar novas (e mais escassas) fontes de subsistência, como o aluguer da galeria-armazém à Tanoaria Real, à Alfândega de Lisboa e a armazéns de produtos das terras encontradas, e também o fabrico e venda de pastéis de nata (cuja fama se mantém), etc. O Estado negava direitos ao mosteiro, apossava-se dos seus haveres, a Real Junta da Marinha instalada nas arcadas não pagava rendas desde 1763, as tropas inglesas e o Hospital Militar Britânico durante cinco anos aquarteladas nas galerias superiores do claustro, para o que foram entaipados os arcos, danificaram muito o mosteiro e não havia dinheiro para reparações. Definhavam os estudos e a vida espiritual e moral do convento.
Extinto pelo governo liberal em 1833, o mosteiro foi incorporado na coroa, tornando-se nova instalação do instituto educativo fundado por Pina Manique, a Casa Pia, passando a igreja a sede de paróquia. O valiosíssimo recheio do mosteiro praticamente desapareceu, tendo uma grande parte sido destruído.

Desde sempre intimamente ligado à casa Real Portuguesa, o Mosteiro dos Jerónimos, pela força da Ordem e suas ligações a Espanha, pela produção intelectual dos seus monges, pelo facto de estar inevitavelmente ligado à epopeia dos Descobrimentos e, inclusivamente, pela sua localização geográfica, na capital, à entrada do porto, é cedo interiorizado como um dos símbolos da nação lusa.
Inclui, entre outros, os túmulos dos reis D. Manuel I e sua mulher, sua filha D. Maria, D. João III e sua mulher D. Catarina, D. Henrique e ainda os de Vasco da Gama, de Luís Vaz de Camões, de Alexandre Herculano e de Fernando Pessoa.
Declarado Monumento Nacional em 1904, passou a “Património Cultural de Toda a Humanidade” em 1984, por declaração da UNESCO.
Os Claustros do Mosteiro dos Jerónimos foram o palco da assinatura do tratado de adesão à ComunidadeEuropeia, em 1986, sendo simbolicamente escolhidos para expressar que ser europeu não implica a perca da identidade portuguesa.

Autor: A. Pires
Adaptacão de vária literatura e consulta internet

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