quarta-feira, 25 de abril de 2012

No dia em que Salgueiro Maia saiu à rua...

25 de Abril de 1974 - 25 de Abril de 2012 - 38 anos de Liberdade!


Foram dias, foram anos a esperar por um só dia.
Alegrias. Desenganos. 
Foi o tempo que doía com seus riscos e seus danos. 
Foi a noite e foi o dia na esperança de um só dia. 

Manuel Alegre



VITRIOL - ASSOCIAÇÃO PARA A DIVULGAÇÃO E PROMOÇÃO DA LÍNGUA E CULTURA LUSÓFONA

terça-feira, 10 de abril de 2012

O Regresso

Ensinar-te-ei coisas que ninguém te poderá ensinar: 
Que o pão é pão, que o vinho é vinho,
Que o teu corpo é o meu corpo,
Que com o pão, o vinho,
A carne e os frutos
Alimentarás a minha e a tua carne,
O meu e o teu verbum. .
Que do teu corpo que é o meu corpo,
Despertará o Espírito,
Que os teus olhos que são os meus olhos,
Verão os sinais,
Que os teus ouvidos que são meus ouvidos,
 Ouvirão a palavra,
Que as tuas mãos que são as minhas mãos,
Moldarão a vida,
Que o teu corpo morrerá com o meu corpo,
No fim do teu caminho,
 E outros caminhos seguiremos,
Por eu ser o Todo e estar em ti.
Tu fazes parte desse Todo, desse círculo,
 Que é um princípio e um fim perpétuos;
Onde cabe toda a geometria,
Toda a matemática,
Toda a ciência do perpétuo imaginário do homem.
Que de noite como os corvos
Tocarás a Lua,
Que de dia como as águias
Enfrentarás o Sol.

Quando tudo parecer o fim será a Suprema Luz
E tudo o que é espírito, Espírito Santo será
E tudo o que é carne ao pó voltará.

No Fim dos Fins, Princípio dos Princípios,
Eu estarei no trono com o meu Pai,
Para julgar a tua aritmética.
Aquilo que somaste para ti
Poderás ter subtraído a outros,
E o que multiplicaste para ti
Poderás não ter multiplicado para outros;
E tudo o que dividiste da tua multiplicação,
E tudo o que subtraíste à tua soma
E dividiste pelos teus Irmãos
Farão parte da tua contabilidade.

O meu Reino será o teu Reino,
A minha Coroa será a tua Coroa,
O meu Irmão caído regressará a Casa.


Autor: Jónatas

terça-feira, 3 de abril de 2012

Enorme rampa de lançamento de barcos do séc. XVI



Os arqueólogos encontraram uma enorme rampa de lançamento de barcos do séc. XVI junto ao mercado da Ribeira, em Lisboa. Feita com troncos de madeira sobrepostos, a estrutura ocupa 300 metros quadrados e data de uma época em que a cidade sofria os efeitos de sucessivos surtos de peste e epidemias, graças aos contactos com outra gente proporcionados pelos Descobrimentos. 

Para continuar a trazer de além-mar o ouro, a pimenta e o marfim que lhe permitiam pagar as contas, o reino investia na construção naval, e a zona ribeirinha da cidade foi designada como espaço privilegiado de estaleiros. Os relatos da altura dão conta de uma cidade cheia de escravos vindos de além-mar, mas também de mendigos fugidos do resto do país para escapar à fome. 

Os arqueólogos nem queriam acreditar na sua sorte quando depararam com a rampa enterrada no lodo debaixo da Praça D. Luís, a seis metros de profundidade, e muito provavelmente associada a um estaleiro naval que ali deverá ter existido. "É impressionante: é muito difícil encontrar estruturas de madeira em tão bom estado", explica uma das responsáveis da escavação, Marta Macedo, da empresa de arqueologia Era. 
No Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico o achado também tem sido motivo de conversa, até porque os técnicos desta entidade foram chamados a acompanhar os trabalhos, que estão a ser feitos no âmbito da construção de um parque de estacionamento subterrâneo. A subdirectora do instituto, Catarina de Sousa, diz que esta e outras estruturas encontradas são, apesar de muito interessantes, perecíveis, pelo que a sua conservação e musealização na Praça D. Luís é "praticamente inviável". Como a escavação ainda não terminou, os arqueólogos acalentam a esperança de ainda serem brindados, em níveis mais profundos, com algum barco submerso no lodo, como já sucedeu ali perto, tanto no Cais do Sodré como no Largo do Corpo Santo e na Praça do Município. "É possível isso acontecer", admite Catarina de Sousa. 

Musealização em estudo 
No séc. XVI toda a zona entre o mercado da Ribeira e Santos era de praias fluviais. Mas não era para lazer que serviam os areais banhados pelo Tejo. Na História de Portugal coordenada por José Mattoso, Romero Magalhães conta como, poucos anos após a primeira viagem de Vasco da Gama à India, "a zona ribeirinha da cidade é devassada pelos empreendimentos do monarca [D. Manuel I] e dos grandes armadores". 
Depressa surgem conflitos com a Câmara de Lisboa, ao ponto de o rei ter, em 1515, retirado ao município a liberdade de dispor das áreas ribeirinhas para outros fins que não os relacionados com o apetrecho e reparação das naus, descreve o mesmo autor. São as chamadas tercenas, locais dedicados à função naval e representados em vários mapas da época. Mais tarde a mesma designação passa a abranger também o lugar onde se produziam e acondicionavam materiais de artilharia. 
O espólio encontrado pelos arqueólogos inclui uma bala de canhão, um pequeno cachimbo, um pião, sapatos ainda com salto - na altura os homens também os usavam -, restos de cerâmica e uma âncora com cerca de quatro metros de comprimento, além de cordame de barco. Também há uma casca de coco perfeitamente conservada, vinda certamente de paragens exóticas para as quais os portugueses navegavam. 
Um relatório preliminar dos trabalhos arqueológicos em curso explica como a zona da freguesia de S. Paulo se transformou de um aglomerado de pescadores, fora dos limites da cidade de Lisboa, num espaço importante para a diáspora: "A expansão ultramarina contribuiu para uma reestruturação do espaço urbano de Lisboa, que se organiza desde então a partir de um novo centro: a Ribeira". Em redor do Paço Real reúnem-se os edifícios administrativos. "É na zona ocidental da Ribeira que a partir das doações de D. Manuel se irão instalar os grandes mercadores e a nobreza ligada aos altos funcionários de Estado, que irão auxiliar o rei (...) na expansão ultramarina e na centralização do poder", pode ler-se no mesmo relatório. A escavação detectou ainda restos de outras estruturas mais recentes. É o caso de uma escadaria e de um paredão do Forte de S. Paulo, um baluarte da artilharia costeira construído no âmbito das lutas da Restauração, no séc. XVII. E também do vestígios do cais da Casa da Moeda, local onde se cunhava o metal usado nas transacções. Por fim, foram descobertas fornalhas da Fundição do Arsenal Real, uma unidade industrial da segunda metade do séc. XIX. 

"Esta escavação vai permitir conhecer três séculos de história portuária", sublinha outro responsável pela escavação, Alexandre Sarrazola. Embora esteja ciente de que a maioria dos vestígios terá ser destruída depois de devidamente registada em fotografia e desenho, o arqueólogo diz que algumas das peças encontradas poderão vir a ser salvaguardadas e mesmo integradas no projecto do estacionamento, como já sucedeu com os vestígios do parque de estacionamento subterrâneo do Largo do Camões - ou então transportadas para um museu. 
"Face ao desconhecimento do que ainda pode vir a ser encontrado por baixo da estrutura de madeira do séc. XVI está tudo em aberto", salienta, acrescentando que a decisão final caberá ao Instituto do Património Arquitectónico e Arqueológico.