domingo, 31 de julho de 2011

Os segredos templários que Tomar desvenda - III


Do Paraíso ao inferno
Menos escondida, agora, está a Sinagoga de Tomar, depois de séculos destinada a outros fins. Está na Rua Dr. Joaquim Jacinto, antiga Rua Nova ou Rua da Judiaria. Hoje, o edifício de planta quadrangular é quase só um espaço de memória, a aguardar obras de recuperação.
Durante o seu consulado como grão-mestre da Ordem de Cristo e governador de Tomar, o Infante Dom Henrique chamou judeus para povoar a cidade e dinamizar a economia local. Deu-lhes um bairro e o direito a construir a sinagoga. Edificado entre 1430 e 1460, o lugar de oração seria desactivado décadas depois, após a expulsão dos judeus de Portugal - a Sefarad do judaísmo. Transformada em cadeia, capela e casa térrea, seria classificada como monumento nacional em 1921 e comprada, em 1923, por Samuel Schwarz, polaco e engenheiro de minas a trabalhar em Portugal, que estudou a comunidade de judeus escondidos de Belmonte. Em 1939, Schwarz doou a sinagoga ao Estado, mas para que nela fosse instalado um museu luso-hebraico.
Atravessando duas ruas, vamos descansar no Paraíso. O café completou um século a 20 de Maio. Situado na Rua Serpa Pinto (antiga Rua da Corredoura), é propriedade de Alexandra Vasconcelos, que o herdou dos pais, depois do avô e de um tio-bisavô. Um trocadilho local diz que, de manhã, o café é o paraíso, à tarde o purgatório e, à noite, o inferno. Alusão ao público predominante que o frequenta: reformados pela manhã e, progressivamente, um público cada vez mais jovem. Já mal se usam cafés assim: não há inox em sítio nenhum. Apenas madeira e ferro, espelhos, mesas em mármore, colunas e um pé direito altíssimo. Numa das paredes, recortes vários a falar do Paraíso. No tecto, duas ventoinhas. O conjunto tem, apesar da patine do tempo, um encanto especial.
Por aqui passa meia Tomar e Umberto Eco, o autor de "O Nome da Rosa", ia escrever numa das mesas, quando esteve na cidade há uns 15 anos. Com uma fachada em vidro (que transformou a fachada anterior, de quatro pórticos), o melhor do Paraíso, segundo a sua proprietária, é o facto de ser um espaço "arejado e ter um pé direito maravilhoso". "Intemporal."

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sábado, 30 de julho de 2011

Os segredos templários que Tomar desvenda - II


Pedras mágicas
Da memória dos tempos vêm outros sinais, como uma pedra romana que indicia a presença remota no lugar. Ou, mais junto do rio Nabão e ainda perto da roda hidráulica, no centro da cidade, a escultura que representa Santa Iria - na lenda que vem do tempo da evangelização dos visigodos pelos beneditinos, a monja teria sido atirada ao rio por um príncipe apaixonado e não desejado. O seu corpo teria ido depois parar a Santarém, onde o rio se abriu para deixar ver a urna.
Pedras mágicas no convento são as da janela do capítulo, com quatro metros de altura. Estava incorporada na nave que Dom Manuel mandou fazer para ampliar a igreja templária, depois do descobrimento do caminho marítimo para a Índia, explica Álvaro Barbosa. Mais próxima de nós, hoje, do que a sua altura inicial (o claustro de onde a podemos olhar é posterior), traduz uma profusão de símbolos. Com o mar omnipresente, tendo em conta os Descobrimentos.
A janela é toda uma lição de simbologia. A coluna, cujo fuste faz a analogia ao tronco da árvore, remete para a simbologia bíblica da profecia do livro de Isaías, que no cristianismo é lida como antecipação do nascimento de Cristo: "Brotará um rebento do tronco de Jessé". Mas também ali se representam as armas dos reis portugueses (há uma fivela de cinto, como sinal da entronização real) e elementos de flora, de onde sobressaem as alcachofras e os ramos de vime.
Triste é ver a janela a ser comida por líquenes invasivos. Só terão aparecido depois da plantação de coníferas na Mata dos Sete Montes, diz Álvaro Barbosa. Procurava-se imitar as matas de Sintra que, por sua vez, reproduziam as florestas alemãs. Mas Tomar não é Sintra e o efeito foi encher de líquenes as pedras do convento.
De lado, numa das torres, nota-se já o efeito da limpeza: aplicaram-se pachos biológicos com nutrientes que promovem a emigração dos líquenes da pedra para uma calda biológica. A diferença é notória: a pedra foi devolvida à sua beleza na torre já limpa, continua sujeita à patine do tempo na janela e em grande parte das paredes do edifício. Os mais distraídos podem não reparar que há uma outra janela semelhante. Inicialmente, havia três: uma a Ocidente (a actual) e duas a Sul, uma das quais foi entaipada. A que ainda está visível está junto da charola, num dos corredores da casa do capítulo. Vê-se de cima para baixo.
Chegamos ao outro lugar encantado deste convento, a charola. Conta a lenda que os templários entravam montados nos seus cavalos pelo deambulatório. O responsável do convento diz que é impossível confirmar tal versão - provavelmente apenas uma lenda. Verdade é que, em 1640, vários conjurados foram ali sagrados cavaleiros, para lutar contra a ocupação filipina. Tomar sempre no centro da história.
"A mística do espaço tem a ver com a memória trazida do Oriente", diz Álvaro Barbosa. A igreja conventual era a de Santa Maria dos Olivais. A igreja da charola, do convento, era dedicada às cerimónias iniciáticas, aprendidas com os cristãos da Síria e os ortodoxos. Colocada no cimo do monte, a charola era a parte mais elevada do lugar.
"É um dos símbolos da mística fundadora de Portugal", diz o conservador do convento. Os edifícios de planta circular são trazidos para Ocidente depois da tomada de Jerusalém pelos cruzados e pelos templários. Na Cidade Santa, havia um templo circular à volta do Santo Sepulcro.
A charola alude, aliás, à morte e ressurreição de Jesus: estão ali representados os instrumentos da paixão e, na nave manuelina, a ressurreição - explica ainda Álvaro Barbosa. "O rei Dom Manuel nunca perdeu a ideia fundiária do espaço: imitar o lugar onde se deu a ressurreição de Cristo." A representação pictórica traduz também esse simbolismo, através de cenas e imagens ligados à vida de Cristo. No tambor central, uma coroa de espinhos esculpida circunda o anagrama de Cristo. Está, no entanto, escondida, mal se vê de baixo.

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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Os segredos templários que Tomar desvenda - I


Esta sala é quase secreta.
Tem que se ir buscar a chave, descer umas escadas meio escondidas e entrar numa ligeira penumbra que só a iluminação artificial pode quebrar. Ao fundo, abre-se um vão sobre a mata. Por ali sairiam cavaleiros, à procura de encontros secretos, lugares de fuga ou cerimónias ocultas. Para aceder à adega - seria aqui a adega do Convento de Cristo, em Tomar - descem-se sete degraus. Número mítico, símbolo da perfeição na linguagem bíblica. São degraus fora da proporção, que vão aumentando de altura de baixo para cima.
Também no tecto se podem ver símbolos relacionados com a figura da mãe de Jesus: rosas, conchas - antes de ser símbolo de Compostela, a concha era já símbolo de Nossa Senhora - remetem para Maria de Nazaré como vaso de vida, explica o arquitecto Álvaro José Barbosa, ex-director e actual conservador do Convento de Cristo.
Não se sabe a razão de, numa adega, encontrarmos esta decoração - que se repete na cozinha. Certo é que Nossa Senhora da Conceição foi invocada como padroeira da Ordem de Cristo quando, há sete séculos, esta herdou os membros e património dos Templários em Portugal.
A adega - que para alguns era, antes, uma sala de iniciação aos segredos templários - levava ao lado de fora. Ali estava a cerca do convento e a floresta, que já foi "tão densa" que estava vedada "não só aos olhos da vista mas também do espírito", como escrevia Fernão Álvares do Oriente na novela Lusitânia Transformada.
A Mata dos Sete Montes (que está a sofrer pequenas obras de beneficiação para reabrir a tempo da Festa dos Tabuleiros, no início de Julho) era o espaço rústico do convento, explica Álvaro Barbosa. Ali, os monges podiam isolar-se e o boticário podia também ir procurar as plantas para as mezinhas e outros remédios.
Voltamos a encontrar decoração noutro lugar simples como a cozinha. Flores, cálices, cruzes... "O símbolo destinava-se a exprimir conceitos", diz o ex-director do Convento. Provavelmente, acrescenta, seria um modo de levar os monges a recordar em permanência as razões da sua vida naquele lugar. Mas não há certezas. Sabe-se, no entanto, que o complexo constituído pelo Convento de Cristo e pelo Castelo de Tomar, incluindo a Mata dos Sete Montes, está ligado intimamente à História de Portugal.
Essa relação é dominada pela forte presença templária, já que os cavaleiros da Ordem do Templo são chamados a repovoar o território depois da sua conquista aos reinos muçulmanos. Gualdim Pais, mestre da ordem, é o promotor da construção do castelo de Tomar, em 1160. Mas também Almourol, Pombal, Atalaia, Langalhão, Dornes ou Cardiga são entregues aos templários.
Mais tarde, os templários dão lugar, em Portugal, à Ordem de Cristo, em 1319. E, um século depois, o seu grão-mestre será o Infante Dom Henrique, primeiro não-clérigo no cargo, que traz para a antiga casa militar do castelo, entretanto transformada em convento, um grupo de frades orantes. Mais 100 anos e o rei Dom Manuel faz do paço a sua residência favorita, promove o seu alargamento e manda fazer um corpo de igreja com coro alto e pintar a charola, além de outras obras. Com a rainha Catarina, mulher de Dom João III, o edifício torna-se palácio real.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Os segredos dos templários que Tomar desvenda


Uma santa atirada ao rio. Uma janela património mundial que fala de uma epopeia. Uma adega que poderia ter sido um lugar de iniciação. A mais antiga sinagoga de Sefarad. Uma mata dos sete montes. Mistérios templários escondidos nas pedras. Um magnífico tríptico fechado à chave. Ir do Paraíso ao inferno num único café. Uma albufeira mágica e um barco no cais. Com a Festa dos Tabuleiros no horizonte, fomos em busca dos segredos de Tomar e da sua região.

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quinta-feira, 21 de julho de 2011

O Caminho da Serpente


À Lusitânia se chamou Ophiusa “Terra da Serpente”, sendo esta a mais antiga referência conhecida feita ao que é hoje o território português pelo escritor latino Festo Evieno, no IV séc. A.C., esta referência está na origem dos “ophis” povo que viveu principalmente nas montanhas do norte de Portugal e também na foz dos rios Douro e Tejo. Fala-se que seriam druidas ou pró-celtas, cultuavam sob a forma da “serpente” a deusa–mãe.
Símbolo da morte e do renascimento, pois ao hibernar procura o interior da terra, o ventre materno, morre para depois renascer na Primavera, para crescer tem de mudar de pele, numa eterna transmutação, assim é o ser humano para crescer em conhecimento e sabedoria, morre, renasce, muda de pele e cresce.
Não é ao acaso que a deusa–mãe está representada em Portugal sendo também sua Padroeira, Nossa Senhora da Concepção ou Senhora do Ó – a mãe grávida com o crescente lunar e a serpente a seus pés.
Este povo cultuava a “serpente”, adorando assim deusas lunares, Cyntia, Diana ou Selene, ás quais foram erguidos locais de culto ao longo dos Promontório Magno (Lisboa) e Promontório Lunae  (Sintra), este povo que acreditava na transcendência de tais promontórios aí edificou cidades que deram origem a outras cidades, educou os seus filhos, traçou rotas e caminhos por terra e por mar, na nossa alma escreveram a sua história que ainda hoje vive na memória colectiva do povo Lusitano.
É nesse Caminho que o convidamos a viajar, desde Lisboa onde o lendário Ulisses atracou e proclamou: Aqui edificarei a mais bela cidade do Universo, será Ulisseia a capital do mundo! Por quem a Rainha das Serpentes Ophiusa ou a “ deusa lunar Cyntia “ se apaixonou, movida pela dor da partida de Ulisses, formou com a sua própria cauda as Sete Colinas de Lisboa, até ao verdadeiro Finis Terrae do Cabo da Roca e Sintra na busca do “paraíso perdido” que habita algures dentro de nós.

Lisboa – A cidade de Ulisses
Cidade de contrastes, tantos quantos os povos que por ela passaram, celtas, fenícios, romanos, mouros e cristãos, foram transformando e enriquecendo a cidade ao longos dos séculos, a qual se tornou-se famosa e próspera.
O Castelo, as Igrejas, os Conventos, pedras erguidas aos nossos olhos, as ruas estreitas mas luminosas de Alfama e Bairro Alto, o Tejo dos Descobrimentos, o Tejo dos poetas, dos escritores, que entre um sorriso e uma lágrima contida escreveram Portugal, pois a isso apela o mar. O Tejo da saudade que canta o Fado e veste de negros corvos a voz. A Lisboa simbólica do Terreiro do Paço ao Rossio.
Nesta cidade ninguém dorme, só dorme o Tejo quando cantado.
É a Serpente renascida em plena Primavera, a mais bela cidade do Universo.

Sintra – A morada da deusa Cyntia
Na Serra serpentária, altar primitivo de deuses, a história faz-se a partir do alto do promontório no sentido descendente. O promontório apela a todos os nossos sentidos para outra percepção do mistério universal, desde o Cabo da Rocha, agora (Roca) que pela sua importância geográfica suscitou temor e veneração aos vários marinheiros que por ele passaram, erguendo ali locais de culto ao sol e á lua, passando pelo Castelo numa penha erguido, rumo à Vila Velha, outrora terra de Templários, Palácio da Vila morada de Reis mouros e Reis cristãos, com as suas imponentes chaminés apontadas ao céu como que num apelo ao divino.
As árvores milenares que já não contam o tempo; as Fontes de águas inspiradoras; a Quinta da Regaleira, a Iniciática; Monserrate, o seu Palácio e a variada vegetação; o Palácio da Pena, os seus jardins; o Chalé da Condessa D’Edla, símbolo de um grande amor.
Sintra é tudo isto e ainda o que não está visível aos olhos, mas aos sentidos.
É a Sintra do romantismo, dos escritores e poetas que deixaram a deusa Cyntia arrebatar-lhes a alma em cada linha e poema.
A serpente hiberna… Cresce e renasce no Monte da Lua.

De Lisboa Cidade da Luz fundada por Ulisses, ao enigmático Monte da Lua em Sintra, onde mora a deusa da Lua Cyntia, coloca-nos como descendentes de deuses.
Ao fazer o Caminho da Serpente através destes Circuitos e Conferências onde a temática será sempre o “conhecimento” vamos ao encontro do saber e da unidade do ser, rumo á ancestralidade que nos remete ao divinis do povo lusitano e dos seus valores.

Autor: O. Florência

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Património


Cada território está indelevelmente associado ao legado cultural gravado por cada geração.
O seu património ilustra as transformações sociais, espirituais, simbólicas e culturais ocorridas no decorrer dos tempos, conferindo-lhe características únicas que contribuem para a diversidade de cada região e, consequentemente, para uma aproximação e conhecimento para interpelação de todos os legados.

A ideia de roteiro liga-se ao desafio da peregrinação e da viagem.
E, falando-se de peregrinação somos sempre levados à ligação íntima entre o interior e o exterior de qualquer deambular pelos lugares da História. Garrett lembrou-o bem, no início das suas “Viagens”.
Portugal é um continente em miniatura, e aqui encontramos, tantas vezes inesperadamente, a força da memória que nos leva ao fim dos tempos, ou melhor ao inicio dos tempos, para melhor interpretar e entendermos o presente!

Autor: A. Pires

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Saúde Pública


A Saúde Pública é a ciência e arte de proteger e promover a saúde, prevenir a doença e a incapacidade (com o objectivo de prolongar e melhorar a vida) através dos esforços organizados e escolhas informadas da sociedade, organizações públicas e privadas, comunidades e indivíduos.
O conceito de Saúde Pública tem evoluído lentamente. De um campo de actuação predominantemente preocupado com as medidas de prevenção das doenças transmissíveis consideradas necessárias para proteger as populações, assistiu-se ultimamente a uma incorporação crescente de práticas de administração e gestão na prevenção das doenças e na prestação de serviços públicos de saúde. Salienta-se, no entanto, a posição desvantajosa em que sempre se encontrou e as limitações inerentes a uma infra-estrutura de suporte desactualizada, subfinanciada e com escassez de recursos humanos e técnicos.
No entanto, e à medida que avançámos através dos primeiros anos do séc. XXI, tornou-se cada vez mais evidente a contribuição da Saúde Pública na escola, no local de trabalho, nas cidades e nos cuidados de saúde. Há agora por parte dos decisores políticos a percepção de que a promoção e a protecção da saúde das populações, assim como a alteração dos estilos de vida e comportamentos requerem bem mais do que promessas.
Neste contexto, a melhoria da saúde pública requer um esforço multidisciplinar, exigindo a todos os sectores da sociedade a sua contribuição. Além disso, os dividendos decorrentes de uma melhor saúde também serão sentidos por todos os sectores da sociedade uma vez traduzidos em custos sociais e financeiros. Salienta-se, assim, a importância de uma boa saúde comunitária como um recurso económico.
As conquistas da Saúde Pública no Século XX foram relevantes e podemos citar, entre outras: o reconhecimento do tabaco como perigo para a saúde, o controlo das doenças transmissíveis nomeadamente através da vacinação, a redução drástica da mortalidade materna, infantil e perinatal e o planeamento familiar.

Por outro lado em grande parte do Século XX, os sistemas de saúde foram construídos em torno de hospitais e especialistas que fazendo prevalecer a sua tecnologia e especialização, ganharam um papel central na maioria dos sistemas de saúde em todo o mundo. Hoje em dia, o ênfase desproporcional nos hospitais e na especialização e sub-especialização tornou-se fonte de ineficácia e desigualdade, que já provou ser extraordinariamente resistente à mudança.
Novos desafios e novas necessidades estão a ser equacionados: na demografia (redução progressiva da natalidade e o envelhecimento da população), na transição epidemiológica dos padrões de saúde-doença (aumento da obesidade, diabetes, doenças oncológicas e doenças mentais), nas doenças transmissíveis (tuberculose multiresistente, HIV/SIDA, microrganismos multiresistentes, infecção associada aos cuidados de saúde e gripe das aves), na segurança rodoviária e no planeamento das nossas cidades. Estas transformações epidemiológicas, demográficas e sociais, alimentadas pela globalização, urbanização e populações envelhecidas, colocam desafios de uma magnitude que não estava prevista há três décadas atrás.
Estes novos desafios ultrapassam o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e o Sistema de Segurança Social mas impõem-lhe adaptações rápidas e soluções adequadas e eficientes baseadas no reforço da sua organização e infra-estrutura.

Daqui se infere da necessidade de uma aposta clara nos cuidados de saúde primários e na medicina preventiva que leve em conta a história natural das doenças e de um planeamento em saúde baseado na evidência científica e na governação clínica. Isto porque os cuidados de saúde primários têm mais ou menos a mesma probabilidade de identificar as doenças graves mais frequentes; têm o mesmo nível de adesão às normas clínicas mais recentes e que são adoptadas pelos especialistas; prescrevem poucas intervenções invasivas, as hospitalizações da sua iniciativa são menos frequentes e mais curtas e as intervenções têm uma maior orientação para a prevenção. Tudo isto resulta em cuidados de saúde com custos totais mais baixos, com impactos na saúde pelo menos idênticos mas com maior satisfação dos doentes.
Assim, esta reforma da Saúde Pública e dos cuidados de saúde primários em particular, deverá ser efectuada com base num reforço das competências e responsabilização dos médicos de família, dos médicos de saúde pública e dos profissionais de enfermagem num quadro de sustentabilidade do SNS e orientada para a obtenção de ganhos em saúde efectivos para a toda população com equidade e eficiência.

Autor: Dr. Mário Pereira