quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Invictus


Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado
Agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável

Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo e nem me desespero
Sob os duros golpes do acaso
Minha cabeça sangra, mas continua erguida

Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra.
Mas a ameaça dos anos,
Me encontra e me encontrará, sem medo.

Não importa quão estreito o portão
Quão repleta de castigo a sentença,
Eu sou o senhor de meu destino
Eu sou o capitão de minha alma.

Poema de William Ernest Henley, escrito em 1875, poema que Mandela lia todos os dias na cadeia e que lhe serviu de inspiração para continuar cada dia. 
 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Conferência e Roteiro: Os Painéis S. Vicente de Fora


Ciclo de Conferências do Monte da Lua: «Os Painéis de S. Vicente de Fora: a iconografia em questão» 


Os «Painéis de S. Vicente de Fora» que hoje se encontram no Museu Nacional de Arte Antiga, ainda que não suscitem grandes divergências no que respeita a considerações de ordem estética, sendo consensual o fascínio que exercem, são, no entanto, o objecto da maior controvérsia na historiografia do património artístico português, aquela que já fez correr mais tinta e despertou maiores paixões, e que apesar disso, volvido mais de um século da sua redescoberta, se encontra longe de estar definitivamente solucionado.

A presente abordagem, incidirá sobre os grandes pontos de divergência: a disposição dos painéis e o destino iniciais, o seu significado, a identificação da personagem central e demais figuras, as diferentes teses («vicentina», «catarinista», «fernandina», «cardinalícia», «crispiniana», «carlista» e dualistas destas), a autoria, o(s) patrocinador(es), e a data de execução. Serão demonstrados os resultados da própria investigação do conferencista, e à luz desta apontados novos caminhos a percorrer.

Autor: João David Zink, historiador de arte

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A calçada portuguesa


Apesar de os pavimentos calcetados terem surgido no reino por volta de 1500, a calçada à portuguesa, tal como a entendemos hoje, foi iniciada em meados do Séc. XIX. A chamada “calçada à portuguesa”, em calcário branco e negro, caracteriza-se pela forma irregular de aplicação das pedras. Todavia, o tipo de aplicação mais utilizado hoje, desde meados do Séc. XX, designado por “calçada portuguesa”, é aplicado com cubos, e tem um enquadramento diagonal. Calçada à portuguesa, e calçada portuguesa são coisas distintas.

A calçada começou em Portugal de forma direrente da que hoje é, mais desordenada. São as cartas régias de 20 de Agosto de 1498 e de 8 de Maio de 1500, assinadas pelo rei D. Manuel I, que marcam o início do calcetamento das ruas de Lisboa, mais notavelmente o da Rua Nova dos Mercadores (antes Rua Nova dos Ferros). Nessa época, foi determinado que o material a utilizar deveria ser o granito da região do Porto, que, pelo transporte implicado, tornou a obra muito dispendiosa. O objetivo seria que a Ganga, um rinoceronte branco, ricamente ornamentada, não sujasse de lama com o calcar das suas pesadas patas, o numeroso e longo cortejo, com figurantes aparatosamente engalanados com as novas riquezas e adornos vindas do Oriente, que saía à rua em pleno Inverno, aquando do seu aniversário a 21 de Janeiro. A comitiva ficava manifestamente suja, daí a decisão de calcetar as ruas do percurso como forma de dar resposta ao problema. Sendo a única vez no ano em que o rei se mostrava à população vem daí a explressão: “Quando o rei faz anos…”

O terramoto de 1755, a consequente destruição e reconstrução da cidade lisboeta, em moldes racionais mas de custos contidos, tornou a calçada algo improvável à época. Contudo, já no século seguinte, foi feita em Lisboa no ano de 1842, uma calçada calcária, muito mais próxima da que hoje mais conhecemos e continua a ser utilizada. O trabalho foi realizado por presidiários (chamados “grilhetas” na época), a mando do Governador de armas do Castelo de São Jorge, o tenente-general Eusébio Pinheiro Furtado. O desenho utilizado nesse pavimento foi de um traçado simples (tipo zig-zag) mas, para a época, a obra foi de certa forma insólita, tendo motivado cronistas portugueses a escrever sobre o assunto. Em O Arco de Sant’Ana, romance de Almeida Garrett, também a calçada seria referida, tal como em Cristalizações, poema de Cesário Verde. A chamada “calçada à portuguesa”, conforme a conhecemos, em calcário branco e negro, foi empregada pela primeira vez em Lisboa, na encosta do castelo, no ano de 1842.

Após este primeiro acontecimento, foram concedidas verbas a Eusébio Furtado para que os seus homens pavimentassem toda a área da Praça do Rossio, uma das zonas mais conhecidas e mais centrais de Lisboa, numa extensão de 8.712 m². A calçada portuguesa rapidamente se espalhou por todo o país e colónias, subjacente a um ideal de moda e de bom gosto, tendo-se apurado o sentido artístico, que foi aliado a um conceito de funcionalidade, originando autênticas obras-primas nas zonas pedonais. Daqui, bastou somente mais um passo, para que esta arte ultrapassasse fronteiras, sendo solicitados mestres calceteiros portugueses para executar e ensinar estes trabalhos no estrangeiro.

A calçada portuguesa é a herdeira das pavimentações romanas e a expressão portuguesa dessa tradição. O conceito de pavimentação está aliado a uma certa mentalidade romântica, onde se afirma o valor do nacionalismo, que se vai expressar na busca do passado de signos, factos e mitos considerados marcos fundamentais da história de Portugal e da construção da identidade nacional.
São utilizados por isso na calçada portuguesa padrões e elementos decorativos tipicamente portugueses, relacionados com actividades sócio-económicas, peixes, frutos, cereais, animais, artesanato e sobretudo o período dos Descobrimentos marítimos onde pontificam caravelas, sereias, cordas, conchas, ondas do mar, estrelas e esferas armilares.

Em 1986, foi criada uma escola para calceteiros (Escola de Calceteiros da Câmara Municipal de Lisboa), situada na Quinta Conde dos Arcos. Da autoria de Sérgio Stichini, em Dezembro de 2006, foi inaugurado também um monumento ao calceteiro, sito na Rua da Vitória (baixa Pombalina), entre as Rua da Prata e Rua dos Douradores.


Autor: A. Pires

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Crónica de um percurso


Ainda perduram algumas carreiras de eléctricos em Lisboa, algumas mais modernas (com eléctricos de última geração e linhas reconstruídas) e também as mais antigas, e finalmente a 28, do Martim Moniz aos Prazeres. Destas carreira sobreviventes de uma rede que outrora chegava a toda a parte, a mais longa e complicada é a 28, cujo actual percurso data de 1985, mas que já era possível fazer antes, com outras denominações. Há vários aspectos muito interessantes nesta carreira, que a tornam muito procurada por alfacinhas, portugueses e turistas.

Um é o sabor de andar de eléctrico à moda antiga, lentamente, aos encontrões nas curvas, com o chiar das rodas nos carris. Outro é o descanso, para quem não tenha pressa, de um circuito que, feito em outro qualquer meio de transporte, é um verdadeiro suplício. Finalmente, o percurso, pelos locais onde passa, é um verdadeiro passeio pela vida de Lisboa, desde a fundação até aos nossos dias - ou seja, oito séculos de história paulatinamente apreciados das altas e arejadas janelas do eléctrico, condensados numa hora. 

Foi esta última qualidade que levou o nosso mais competente e interessante historiador de Arte, José-Augusto França, a fazer uma narrativa da viagem. Como ele salienta, no prefácio de "28 - Crónica de Um Percurso", o amarelinho "passa por uma dez igrejas, oito conventos que foram, uns vinte palácios e palacetes que são ou já não são, meia dúzia de prédios de destaque, seis jardins e uma dezena e meia de estátuas, dez teatros e cinemas de que só restam dois..."

Assim embalados, lá vamos pelo 28! 
O percurso pode começar no Largo do Martim Moniz ou no largo em frente ao cemitério dos Prazeres, em Campo de Ourique. Vamos iniciar da base mais antiga, o que permite um certo sentido cronológico.

O Martim Moniz - a mais histórica das chagas da capital - já foi consertado, uma necessidade que se fazia sentir há séculos, mas cujo arranjo certamente continua a desagradar a muita gente. 
Seguimos por ruas, apontando a quem se refere o nome de muitas delas - heróis esquecidos de outras guerras - e salientando uma ou outra construção interessante, que aqui nem há muitas. 
Com efeito, tanto o malfadado largo , como a Rua da Palma e a sua continuação, a Avenida Almirante Reis, nunca conseguiram ser nem bonitos, nem agradáveis, nem particularmente interessantes. São aquelas áreas de maldição que todas as cidades têm, mesmo quando já passaram por séculos de gostos, estilos, destruições e reconstruções. 
Mas o 28 logo depois muda para a rua Maria Andrade (uma das filhas do pato bravo que construiu aqueles quarteirões, vai para mais de um século, ficamos a saber) e começa a subir para paragens mais interessantes.

Até à Graça, e mesmo depois dela, é o século XIX que impera, com monumentos maçónicos e operários, apesar de ser zona habitada á muito mais tempo; contudo logo a seguir, pela Rua das Escolas Gerais (o que seriam?), chega-se à Graça e ao berço da nacionalidade. É o Castelo, é a Sé (mandada fazer por D. Afonso Henriques, logo a seguir à tomada da cidade, no terreno de uma mesquita) são os palácios medievais depois tornados conventos, depois prisões, depois tantas outras coisas. 
O Limoeiro, por exemplo, foi Paço dei Rei D. Fernando, morada de D. Pedro e D. Inês, refúgio de D. Leonor Teles e perdição do Conde Andeiro, quase desapareceu no Terramoto, tornou-se convento, depois prisão e actualmente, limpo e depurado, é... Academia!

O 28 passa atravessa então a Baixa, e estamos no período pombalino. Depois, subindo a Calçada de São Francisco (também pombalina) cruza o Chiado, onde há memórias oitocentistas (o antigo Hotel Bragança, em cujo restaurante se deleitavam os perdidos da vida), símbolos do Estado Novo (a PIDE), e, realmente, um pouco de todas as épocas. 
O mesmo se pode dizer do Camões (a terceira grande estátua levantada em Lisboa, depois do D. José e do D. Pedro IV) e mergulha nas profundezas de S. Bento - a Assembleia da República, que já foi convento, o Poço dos Negros, onde eram atirados a um poço, mais palácios, o primeiro centro de Higiene Pública da cidade, hoje desaparecido, a Faculdade de Economia, a Emissora Nacional...

As referências são sempre múltiplas e de muitas épocas, numa cidade que se vem construindo e destruindo sucessivamente ao vento das catástrofes naturais e aos ventos das histórias, das fortunas, das viradeiras. 
Pausa obrigatória na Estrela, a única loucura da rainha louca, com o seu jardim já quase republicano - e depois é a zona da década de 30 e 40 e da pequena burguesia pré e pró-salazarenta, Campo de Ourique. 
Quanto ao cemitério, a leitura dos jazigos, campas e estilos funerários é, em si, toda uma outra leitura da mesma História.

Como se adivinha nesta breve resenha, há pano para muitas mangas, então, convém não esquecer, pode-se mesmo apanhar o 28 e viver tudo isto. 

Autor: A. Pires
In "28 Crónica de um percurso" de José-Augusto França

sábado, 19 de outubro de 2013

Centenário Nascimento Vinicius de Moraes

Eu vi a estrela polar
Chorando em cima do mar
Eu vi a estrela polar
Nas costas de Portugal! 

Desde então não seja Vênus
A mais pura das estrelas
A estrela polar não brilha
Se humilha no firmamento
Parece uma criancinha
Enjeitada pelo frio
Estrelinha franciscana
Teresinha, mariana
Perdida no Pólo Norte
De toda a tristeza humana.

Rio de Janeiro , 1946 

Vinicius de Moraes nasceu em 1913 no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro, filho de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, funcionário da Prefeitura, poeta e violinista amador, e Lídia Cruz, pianista amadora. Vinícius é o segundo de quatro filhos, Lygia (1911), Laetitia (1916) e Helius (1918). Mudou-se com a família para o bairro de Botafogo em 1916, onde iniciou os seus estudos na Escola Primária Afrânio Peixoto. Desde então, já demonstrava interesse em escrever poesias. Em 1922, a sua mãe adoeceu e a família de Vinicius mudou-se para a Ilha do Governador, ele e sua irmã Lygia permanecendo com o avô, em Botafogo, para terminar o curso primário.
Vinicius de Moraes ingressou em 1924 no Colégio Santo Inácio, de padres jesuítas, onde passou a cantar no coral e começou a montar pequenas peças de teatro. Três anos mais tarde, tornou-se amigo dos irmãos Haroldo e Paulo Tapajós, com quem começou a fazer suas primeiras composições e a se apresentar em festas de amigos. Em 1929, concluiu o ginásio e no ano seguinte, ingressou na Faculdade de Direito do Catete, hoje Faculdade Nacional de Direito (UFRJ). Na chamada "Faculdade do Catete", conheceu e tornou-se amigo do romancista Otavio Faria, que o incentivou na vocação literária. Vinicius de Moraes graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1933.

Três anos depois, obteve o emprego de censor cinematográfico junto ao Ministério da Educação e Saúde. Dois anos mais tarde, Vinicius de Moraes ganhou uma bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford. Em 1941, retornou ao Brasil empregando-se como crítico de cinema no jornal "A Manhã". Tornou-se também colaborador da revista "Clima" e empregou-se no Instituto dos Bancários. 
No ano seguinte, foi reprovado em seu primeiro concurso para o Ministério das Relações Exteriores (MRE). Em 1943, concorreu novamente e desta vez foi aprovado. Em 1946, assumiu o primeiro posto diplomático como vice-cônsul em Los Angeles. Com a morte do pai, em 1950, Vinicius de Moraes retornou ao Brasil. Nos anos 1950, Vinicius atuou no campo diplomático em Paris e em Roma, onde costumava realizar animados encontros na casa do escritor Sérgio Buarque de Holanda. 
No final de 1968 foi afastado da carreira diplomática tendo sido aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional Número Cinco.

O poeta estava em Portugal, a dar uma série de espectáculos, alguns com Chico Buarque e Nara Leão, quando o regime militar emitiu o AI-5. O motivo apontado para o afastamento foi o seu comportamento boêmio que o impedia de cumprir as suas funções. Vinícius foi anistiado (post-mortem)pela Justiça em 1998. A Câmara dos Deputados brasileira aprovou em Fevereiro de 2010 a promoção póstuma do poeta ao cargo de "ministro de primeira classe" do Ministério dos Negócios Estrangeiros - o equivalente a embaixador, que é o cargo mais alto da carreira diplomática. A lei foi publicada no Diário Oficial do dia 22 de junho de 2010 e recebeu o número 12.265.

Vinicius começou a se tornar prestigiado com sua peça de teatro "Orfeu da Conceição", em 25 de setembro de 1956. Além da diplomacia, do teatro e dos livros, sua carreira musical começou a deslanchar em meados da década de 1950 - época em que conheceu Tom Jobim (um de seus grandes parceiros) -, quando diversas de suas composições foram gravadas por inúmeros artistas. Na década seguinte, Vinicius de Moraes viveu um período áureo na MPB, no qual foram gravadas cerca de 60 composições de sua autoria. Foram firmadas parcerias com compositores como Baden Powell, Carlos Lyra e Francis Hime. 
Na década de 1970, já consagrado e com um novo parceiro, o violonista Toquinho, Vinicius seguiu lançando álbuns e livros de grande sucesso.

Na noite de 9 de julho de 1980, acertando detalhes com Toquinho sobre as canções do álbum "Arca de Noé", Vinicius alegou cansaço e que precisava tomar um banho. Na madrugada do dia seguinte Vinicius foi acordado pela empregada, que o encontrara na banheira de casa, com dificuldades para respirar. Toquinho, que estava dormindo, acordou e tentou socorrê-lo, seguido por Gilda Mattoso (última esposa do poeta), mas não houve tempo e Vinicius de Moraes morreu pela manhã.

 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Poema Papiniano Carlos



Notável poesia de Papiniano Carlos lida aquando do Congresso Republicano de 1956.
Que ajude a inspirar os Republicanos vivos no exemplo dos Republicanos mortos.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Uma bofetada na República


Os Centros Republicanos sempre comemoraram o 5 de Outubro.
Sempre junto à estátua de António José de Almeida, quer durante a Primeira República, quer na Ditadura do Estado Novo e agora, ao longo da Segunda República. Mas sempre, arrostando durante a Ditadura com cargas policiais e selváticas.
Agora, acabou-se com o feriado do 5 de Outubro, curiosamente num tempo em que o Sr. Presidente da República louva esta e os seus ideais fazendo apelo à ética Republicana. Os dois anteriores Presidentes, Mário Soares e Jorge Sampaio, também o fizeram e com forte convicção.
Ora, quando os nossos Presidentes assim procedem, a República resulta em exemplo estimulante para os comportamentos que os actores políticos nem sempre, como tal, têm assumido.
Na Ditadura, foi a “República” que aglutinou o combate politico com as intervenções sacrificadas de muitos Republicanos. Os Congressos Republicanos de Aveiro foram disso exemplo notável. A República foi nesses difíceis tempos a voz, o coração e a coragem da Oposição.

O Governo, da República, decidiu extinguir o feriado do 5 de Outubro e ao fazê-lo, pelo menos, está a esquecer os seus fundadores republicanos, já mortos, companheiros de quem nos lembramos agora, Mário Montalvão Machado, Artur Santos Silva, José Augusto Seabra, Artur Andrade, Artur da Cunha Leal, Olívio França, Nuno Rodrigues dos Santos, entre outros.
Importa dizer não, por Decência.

Talvez a notável poesia de Papiniano Carlos lida aquando do Congresso Republicano de 1956,
ajude a inspirar os Republicanos vivos no exemplo dos Republicanos mortos:

“Que vos dizer, ó companheiros mortos,

Ó mestres queridos, ilustres ou anónimos?
Que palavras incolores, que rosa desfolhada
para dar-vos? Não, a terra não ficou
por semear, nem o navio abandonado,
a tarefa inacabada.
 
Mesmo que vós nos dissésseis: “Estamos mortos!
Que esperais de nós ainda?”, nós sabemos
que é a vosso lado que atravessaremos as sombras
destes terríveis tempos. Convosco viajaríamos
através da morte, da peste e dos infernos
se preciso fosse. A liberdade escreve-se
com sangue, estrelas e raízes, e é no meio
das trevas e dos cárceres que floresce

Assim vós a amastes e nos ensinaste.

Assim a amamos e, em seu nome,
havemos de chegar ao fim
da áspera jornada:

Com o exemplo da vossa união,
com vossa fé, vosso amor ao Povo, vossa verdade,
vosso navio,
vossa inesquecível voz.”


Viva a República!

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Conferência Fernão Mendes Pinto


No âmbito do Ciclo de CONFERÊNCIAS DO MONTE DA LUA, a VITRIOL Associação realizou a 19.ª Conferência com o tema - FERNÃO MENDES PINTO: PEREGRINANDO no LABIRINTO do ORIENTE, por ANTÓNIO M. FERRO.

Antecipando o 4.º Centenário da publicação de Peregrinação, que ocorre no próximo ano, ensaia-se nesta comunicação uma leitura desse texto fundamental da Cultura, da Literatura e da Língua Portuguesa, tendo como novelo de Ariana e bússola os conceitos de mito e desmitificação, biografismo e autobiografismo, Portugal e os portugueses, História e Utopia, verdade e fantasia, viagem e milagrismo, e outros vários rumos e navegações, ora “pelo rio abaixo” ora “pelo rio acima”. 

Autor: António M. Ferro
Mestre em Filosofia pela Universidade de Lisboa e Doutor em Linguística Românica pela Universidade de Bucareste.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Peregrinando II

Saudades da minha gueixa
Como sal dissolvo-me na memória de ti
antiquíssimo alimento de minha alma perdida
e sorvo avidamente a minha cicuta diária
na inquietude longa e dura e vária
que a tua ausência traz ao meu desfazer-se
dia a dia e navegar
Meu pão nosso de cada dia
e minha querida navegação antiga
em tua ausência vou amiga e Circe
pelo rio acima

e pelo rio abaixo

Autor: António M. Ferro