quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Poema Papiniano Carlos



Notável poesia de Papiniano Carlos lida aquando do Congresso Republicano de 1956.
Que ajude a inspirar os Republicanos vivos no exemplo dos Republicanos mortos.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Uma bofetada na República


Os Centros Republicanos sempre comemoraram o 5 de Outubro.
Sempre junto à estátua de António José de Almeida, quer durante a Primeira República, quer na Ditadura do Estado Novo e agora, ao longo da Segunda República. Mas sempre, arrostando durante a Ditadura com cargas policiais e selváticas.
Agora, acabou-se com o feriado do 5 de Outubro, curiosamente num tempo em que o Sr. Presidente da República louva esta e os seus ideais fazendo apelo à ética Republicana. Os dois anteriores Presidentes, Mário Soares e Jorge Sampaio, também o fizeram e com forte convicção.
Ora, quando os nossos Presidentes assim procedem, a República resulta em exemplo estimulante para os comportamentos que os actores políticos nem sempre, como tal, têm assumido.
Na Ditadura, foi a “República” que aglutinou o combate politico com as intervenções sacrificadas de muitos Republicanos. Os Congressos Republicanos de Aveiro foram disso exemplo notável. A República foi nesses difíceis tempos a voz, o coração e a coragem da Oposição.

O Governo, da República, decidiu extinguir o feriado do 5 de Outubro e ao fazê-lo, pelo menos, está a esquecer os seus fundadores republicanos, já mortos, companheiros de quem nos lembramos agora, Mário Montalvão Machado, Artur Santos Silva, José Augusto Seabra, Artur Andrade, Artur da Cunha Leal, Olívio França, Nuno Rodrigues dos Santos, entre outros.
Importa dizer não, por Decência.

Talvez a notável poesia de Papiniano Carlos lida aquando do Congresso Republicano de 1956,
ajude a inspirar os Republicanos vivos no exemplo dos Republicanos mortos:

“Que vos dizer, ó companheiros mortos,

Ó mestres queridos, ilustres ou anónimos?
Que palavras incolores, que rosa desfolhada
para dar-vos? Não, a terra não ficou
por semear, nem o navio abandonado,
a tarefa inacabada.
 
Mesmo que vós nos dissésseis: “Estamos mortos!
Que esperais de nós ainda?”, nós sabemos
que é a vosso lado que atravessaremos as sombras
destes terríveis tempos. Convosco viajaríamos
através da morte, da peste e dos infernos
se preciso fosse. A liberdade escreve-se
com sangue, estrelas e raízes, e é no meio
das trevas e dos cárceres que floresce

Assim vós a amastes e nos ensinaste.

Assim a amamos e, em seu nome,
havemos de chegar ao fim
da áspera jornada:

Com o exemplo da vossa união,
com vossa fé, vosso amor ao Povo, vossa verdade,
vosso navio,
vossa inesquecível voz.”


Viva a República!

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Conferência Fernão Mendes Pinto


No âmbito do Ciclo de CONFERÊNCIAS DO MONTE DA LUA, a VITRIOL Associação realizou a 19.ª Conferência com o tema - FERNÃO MENDES PINTO: PEREGRINANDO no LABIRINTO do ORIENTE, por ANTÓNIO M. FERRO.

Antecipando o 4.º Centenário da publicação de Peregrinação, que ocorre no próximo ano, ensaia-se nesta comunicação uma leitura desse texto fundamental da Cultura, da Literatura e da Língua Portuguesa, tendo como novelo de Ariana e bússola os conceitos de mito e desmitificação, biografismo e autobiografismo, Portugal e os portugueses, História e Utopia, verdade e fantasia, viagem e milagrismo, e outros vários rumos e navegações, ora “pelo rio abaixo” ora “pelo rio acima”. 

Autor: António M. Ferro
Mestre em Filosofia pela Universidade de Lisboa e Doutor em Linguística Românica pela Universidade de Bucareste.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Peregrinando II

Saudades da minha gueixa
Como sal dissolvo-me na memória de ti
antiquíssimo alimento de minha alma perdida
e sorvo avidamente a minha cicuta diária
na inquietude longa e dura e vária
que a tua ausência traz ao meu desfazer-se
dia a dia e navegar
Meu pão nosso de cada dia
e minha querida navegação antiga
em tua ausência vou amiga e Circe
pelo rio acima

e pelo rio abaixo

Autor: António M. Ferro

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Peregrinando - I

Peregrinando paciente impaciente
o pobre de mim! Em minha vela vou
por este rio acima
por este rio abaixo
As vezes mísero às vezes nobre
Ora valente ora covarde enorme ingente
As vezes grande às vezes baixo
Quem sou se faz deste indo e navegar
assim tão incerto e tão contrário
Às vezes blasfémias ás vezes orações
Entre naufrágios e milagres
bombardas golpes tempestades
feridas e monções
por este rio acima
por este rio abaixo vou
 

E rumando tesouros e feridas e ilusões
que quão incertas são as cousas da China! 

Sou imprevisto e vário
e ladrão embaixador avaro soldado
mercador falsário cruel bondoso ruim
generoso escravo mísero mas corsário
de mim sempre. Que escrevo?
Mas cossairo de mim sempre!

Autor: António M. Ferro

terça-feira, 30 de julho de 2013

Este é tempo de sim


Este é tempo de sim
Tempo de cada um por si e para si
Carreira ordem unida orelha murcha
Vida vidinha medo miudinho
Tempo de chefe e chefezinho
Este é tempo outra vez de Portugal em inho
Eis senão quando vem Fernando Valle
Com seu cabelo branco e seu sorriso
Traz consigo a velha trilogia
Liberdade (diz ele) 

E há nos seus olhos
Uma bandeira a conduzir o povo
Igualdade (diz ele) 

E chegam guerrilheiros
Com suas armas e sua festa
Garrett desembarca no Mindelo
Antero fala nas Conferências do Casino
Tocam sinos
E chegam carbonários
Sonhadores
A Rotunda o Relvas a República
Fraternidade (diz) E aí estamos nós
De novo de mão na mão
Prontos para o combate
E para o não  

Ouviremos o Torga
Seremos contra isto para ser por isto
Resistir é possível
Pela esperança lúcida
É possível começar de novo
 

Porque ainda há Fernando Valle
Algures em Coimbra ou Arganil
Há ainda um velho capitão do povo
Com ele é sempre Portugal
E é sempre Abri
l.

Na data de nascimento - 30 de Julho, poema de Manuel Alegre dedicado à memória de Fernando Valle


quinta-feira, 18 de julho de 2013

Caminho


Longe é a noite para aquele que vela
Longe é o caminho para aquele que está fatigado
Longe é a série para os ignorantes...

Caminho, poema de António Albino Machado


quinta-feira, 4 de julho de 2013

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Origem do conto do Vigário, Fernando Pessoa


Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário. Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa. 

Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, disse-lhe: "Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O senhor quer? Largo-lhas por vinte mil réis cada uma.»; «Deixa ver», disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as: «Para que quero eu isso?», disse; «isso nem a cego se passa.» O outro, porém, insistiu; Vigário cedeu um pouco regateando; por fim fez-se negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma.

Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos negociantes de gado como ele, a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia da feira, em a qual se deveria efectuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade, quando surgiu pela porta, cambaleando de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se, se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Eles disseram que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem. Houve então a troca de outro olhar.
O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O vigário continuou a conversa, e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho. Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as coisas todas certas. E ditou o recibo – um recibo de bêbedo, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, e "estando nós a jantar (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa do bêbedo...), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.

Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia a recebê-la devolveu-a logo, por descaradamente falsa, e o mesmo fez à segunda e à terceira... E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar.
Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atónito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido. Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis. "E se eu tivesse pago em notas de cem", rematou o Vigário "nem eu estava tão bêbedo que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam." E, como era de justiça foi mandado em paz.

O caso, porém, não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do "conto de réis do Manuel Vigário" passou, abreviada, para a imortalidade quotidiana, esquecida já da sua origem.
Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que, se há um céu para os hábeis, como constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade – nem um leve brilho de olhos de Macchiavelli ou Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Savile, Marquês de Halifax.

Contado por Fernando Pessoa.
(Publicado pela primeira vez no diário Sol, Lisboa, ano I, nº 1, de 30/10/1926, com o título de «Um Grande Português». Foi publicado depois no Notícias Ilustrado, 2ª série, Lisboa, 18/08/1929, com o título de "A Origem do Conto do Vigário".)

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Um poema inédito de Fernando Pessoa

De leste a oeste comandámos,
Onde o sal vai, pisámos nós. 

Ao luar de ignotos fins buscámos
A glória, inéditos e sós. 

Doença o nosso sono brando.
Para quando é a nova lida,
Ó mãe Ibéria, para quando?

Dois povos vêm da mesma raça
Da mãe comum dois filhos nados,
Hispanha, glória, orgulho e graça,
Portugal, a saudade e as espada,
Mas hoje... clama no ermo insulso
Quem fomos por quem somos, chamando. 

Para quando é o novo impulso
Ó mãe Ibéria, para quando?
Este poema inédito de Fernando Pessoa, manuscrito e datado, de que actualizei a ortografia, merece alguns comentários.

Em primeiro lugar são de referir duas variantes nos dois primeiros versos da segunda estrofe: "três" em vez de "dois povos" e de "dois filhos". O terceiro filho seria a Catalunha, que figura depois de Portugal (quarto verso), por acrescento posterior. A Mãe Ibéria teria assim, na segunda versão que os acrescentos deixam entrever, três filhos: Portugal, a Hispanha assim chamada e a Catalunha: duas filhas e um filho macho.
É curioso constatar que o tal Quinto Império, com cujo sonho Pessoa se entreteve ao longo da vida, que seria do domínio do ser e não do ter - o da cultura e não o do poder, como no passado - abrangeria também a mãe Ibéria, como este poema deixa entender. 
Essa a sua originalidade, abrindo perspectivas novas à compreensão do messianismo de Pessoa.

Descoberto, fixado e comentado por Teresa Rita Lopes
In, Hablar Falar de Poesia nº 1, Outono 1997
http://www.cfh.ufsc.br/~magno/orpheuinedito.htm