quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O problema da habitação nos anos 70


Conferência sobre a experiência do SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local) nos bairros degradados de Lisboa e a organização dos moradores na Luta pela Habitação, por ALBANO PIRES.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Miguel Torga


"Ninguém me encomendou o sermão, mas precisava de desabafar publicamente. Não posso mais com tanta lição de economia, tanta megalomania, tão curta visão do que fomos, podemos e devemos ser ainda, e tanta subserviência às mãos de uma Europa sem valores"
Miguel Torga - 1993

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Monte da Lua ou Serra de Sintra


Chegámos ao promontório do cabo do mundo, que apela a todos os nossos sentidos para uma outra percepção. O que haverá no Monte da Lua que nos cativa e encanta de tal forma que ficamos deslumbrados a cada passo que damos. 
Dizem que é aqui que mora a deusa Cíntia que em noites de lua cheia dança com as fadas e mouras encantadas, príncipes, elfos e duendes, onde a cada brisa que traz nevoeiro do mar se escreveram lendas e histórias que até hoje perduram na memória deste lugar. 
Mas deixemos a deusa Cintia dançar nos picos desta Serra serpentária e vamos falar um pouco do Monte que á Lua pertence, fazendo o caminho descendente a partir do alto dos penedos.

Na Antiguidade Clássica ficou conhecida por Promontorium Lunae ou Monte da Lua, pela forte tradição de culto astrolátrico dedicado á Lua, desde os tempos da pré história até á dominação romana, prosseguindo ao longo dos séculos com a igreja medieval condenando repetidamente o uso de amuletos em forma de Lua. Esses cultos atingiram grande vigor na Serra de Sintra que se estende e termina no Cabo da Roca marcando o ponto mais ocidental do continente europeu. 
Sintra passou por várias grafias ao longo dos séculos, há quem afirme que Sintra advirá do “sin”, que para os babilónios significaria montanha e “tra” pelos lusitanos pois conteria em si a três fases da Lua, também há quem refira que “suntria” seria mais antiga forma medieval conhecida, a mesma aponta para o indo-europeu, “astro luminoso”, seja qual for a denominação Cynthia, Xentra ou Suntria , foi através dos Fenícios, Celtas, Lusitanos, Romanos, Mouros, que Sintra se tornou na riqueza cultural que compõe esta Serra.

Sintra foi classificada Património Mundial no âmbito da Paisagem Cultural em 1995, a candidatura de Sintra a Património Mundial exigia uma mistura singular de locais naturais e culturais exemplares, a Serra de Sintra corresponde-lhe de uma forma excepional, quem a vê de longe vislumbra uma cadeia montanhosa granítica coberta de densa floresta, quem a vê mais de perto, observa marcas culturais de uma riqueza surpreendente que nos fala de vários séculos da história de Portugal.

As várias culturas dos povos que aqui se instalaram e fizeram deste lugar a sua pátria, misturam-se e espalham-se pela paisagem, em socalcos de memórias vivas que estão abertas aos nossos olhos e outras suspensas no tempo mas que falam aos nossos sentidos. 
Erguido sobre um maciço rochoso num dos cumes da Serra ergue-se o chamado Castelo dos Mouros, uma pesquisa arqueológica revelou uma primitiva ocupação datada do sec X a VIII a.c., mas terá sido com a invasão muçulmana a partir do Séc. VIII que foi construída a primitiva fortificação a fim de controlar as vias terrestres que ligavam Sintra a Mafra, Cascais e Lisboa. 
Do alto desta fortificação para além da vista privilegiada que se estende até ao oceano avistamos o imponente Palácio Nacional de Sintra, ou Palácio da Vila, terá sido residência dos governantes mouros da região, constituído por vários corpos edificados ao longo das sucessivas ocupações. Quando Sintra foi tomada aos mouros nos Sec. XII, D. Afonso Henriques doou o Palácio e o Castelo a Gualdim Pais, Grão-mestre da Ordem dos Templários em Portugal. Foi com D. João I que surgiram as primeiras alterações no Palácio, as chaminés cónicas, o edifício central bem como várias salas. A estas alterações se seguiram outros projectos de remodelação nos séc. XV e XVI, de salientar o estilo “manuelino” inspirado nos descobrimentos, bem como a influencia islâmica chamado o estilo “mudejar”.

No coração da Serra temos o Convento de Santa Cruz dos Capuchos, mandado construir por D. Álvaro de Castro no séc. XVI, famoso pelo extremo da sua pobreza, seja da construção como das próprias condições de vida á época, foi habitado até finais do Sec. XVIII sendo depois abandonado com a extinção das ordens religiosas. 

No Séc. XIX, Sintra oferece-nos o que de mais belo e sublime o movimento romântico criou, em redor do centro histórico surgem vários palacetes como Monserrate de estilo oriental, envolvido por um verdadeiro parque botânico com plantas e arvores vindas de vários pontos do mundo, de quintas senhoriais como a Quinta do Relógio de inspiração neo-mourisca ou a Quinta da Regaleira onde a simbólica nos faz avançar para dentro e ao fundo de nós.

Várias personalidades imortalizaram este Promontório, desde pintores, músicos, compositores, poetas, escritores, historiadores, mas entre todas as personalidades que se renderam e se inspiraram em Sintra, uma houve que mudou o curso da sua história, D. Fernando II, o rei artista, homem de vasta cultura e sensibilidade refinada, fez nascer no Alto desta Serra o mais magnifico Palácio, fruto de um sonho maior, o Palácio da Pena e o seu Parque deslumbrante, onde está inserido o Chalet da Condessa D’Edla, segunda mulher de D. Fernando, símbolo de um amor que sobreviveu ao fogo e ao tempo. 

Seria tarefa difícil enumerar todos os encantos e recantos de Sintra, nada como visitá-la e senti-la, pois é um daqueles locais onde a mão dos deuses se aprimorou.

Autor: O. Florência

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Cabo Barbárico ou Cabo Espichel


Sob a intensa luz do sol que cobre de ouro e azul a imensidão do mar, este maciço calcário que se estende até á Serra da Arrábida, mais parece um monstro marinho que dorme sob os nossos pés. Não há vento, nem ninguém, apenas os olhos para admirar esta beleza absoluta e revelar o indizível, numa dualidade que se divide entre a natureza e a mão do homem. Os promontórios não são apenas acidentes geográficos da natureza, são também lugares de história, tradição e religião, reactualizados ao longo do tempo, na sequência das sucessivas ocupações, desde os povos pré-históricos, fenícios, romanos, muçulmanos e cristãos, sendo que o Cabo Espichel não fugiu á regra.

Para entendermos porque se chamou Cabo Barbárico, temos de recuar no tempo. Este promontório foi habitado por um povo, os sárrios, provenientes de Tiro, que aqui formaram uma colónia cuja capital era Salácia. É ao caldeu que se vai buscar a origem do nome “sárrio” ou tsar, que significa púrpuro. Os fabricantes destas cores eram chamados de tsarah, que os romanos, no seu idioma, deram o nome de barbarii, ou barbáricos. Assim o nome de Cabo Barbarium foi dado a este local que é hoje o Cabo Espichel. 
No livro “Antiguidades da Lusitânia”, André de Resende descreveu que nestas paragens havia um certo género de marisco, dos quais se geravam uns bichinhos vermelhos como o sangue e aromáticos. Depois de secos, feitos em pó, serviam para tingir de púrpura ou o carmesim. Também, nasciam umas flores silvestres, que colhidas na primavera e depois de secas faziam a cor púrpura com que se vestiam os Imperadores. Assim, os mercadores romanos vinham ao promontório comercializar com os barbáricos a fina “grãn” que levavam para Roma e às feiras de Tiro por grande valor e estima.
Enquanto povo, procuravam as montanhas e os promontórios para instalarem as suas comunidades, acreditando que os deuses moravam em tais lugares. Os romanos, por outro lado, evitavam esses lugares, exactamente pelo mesmo motivo, criando colónias noutros locais. Porém, com o tempo e as sucessivas ocupações dos povos que por aqui passaram, a fé dos homens mudou e este lugar também.

O Santuário da Nossa Senhora da Pedra Mua ou Santuário do Cabo Espichel é um conjunto arquitectónico que envolve património edificado e património natural. A primeira categoria está directamente ligada à lenda da “Pedra Mua”, a versão mais conhecida remonta ao séc. XV, refere que a Nossa Senhora foi transportada numa jumentinha desde o mar até ao topo do cabo. É neste quadro, que as pegadas da jumentinha se cruzam com a identificação de pistas de dinossauros impressas na rocha. Toda esta carga simbólica proporcionou um terreno fértil para a tradição popular expressar a sua fé, culminando com o esplendor das romarias e festas consagradas à Nossa Senhora do Cabo Espichel.
Esta atmosfera religiosa à volta da lenda deu origem à mais antiga construção do santuário, a Ermida da Memória. É um pequeno templo quatrocentista de planta rectangular, simples e harmoniosa, onde no seu interior e na fachada sul figuram painéis de azulejos que narram o historial do santuário, sendo este imóvel edificado por iniciativa dos primeiros peregrinos. 
A Igreja de Nossa Senhora do Cabo, datada do Séc. XVIII, construção de iniciativa da Casa Real Portuguesa, tem no interior da capela as paredes revestidas a mármore, destacam-se, ainda, os frescos e pinturas a óleo de estilo ilusionista de perspetiva, executadas por Lourenço da Cunha, as únicas que subsistem até hoje deste artista.

Ladeando o Santuário em corpos paralelos, temos a Casa dos Cirios ou simplesmente hospedarias, construídas também no Sec. XVIII, com o objectivo de substituir as casas dos romeiros que se dispunham em volta do antigo templo. Devido à grande afluência de peregrinos, D. José I mandou construir a Casa da Água a fim de abastecer o local, provindo a mesma da vizinha povoação da Azoia conduzida pelo Aqueduto. 
Também edificada por D. José I, temos a Casa da Ópera, que incluía cenários e acomodações para público e artistas. Eram organizados espectáculos com companhias famosas para animar os festejos. 
Não podemos esquecer o Farol, luz dos navegantes de outrora e de hoje. Já em 1430 a Irmandade deste santuário tinha instalado um farolim que antecedeu o que é hoje a actual Torre.

É esta dualidade que faz do Cabo Espichel um lugar especial. Entre o património construído de caracter religioso e militar e as escarpas erguidas de um mar intensamente azul, invocando assim o enigma da natureza primordial que ao longe vai beijar o Monte da Lua.

Autor: O. Florência

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Solstício de Inverno 2012

Solstício de inverno.
Aqui estou novamente a festejá-lo
À fogueira dos meus antepassados
Das cavernas.
Neva-me na lembrança,
E sonho a primavera
Florida nos sentidos.
Consciente da fera
Que nesses tempos idos
Também era,
Imagino um segundo nascimento
Sobrenatural
Da minha humanidade.
Na humildade
Dum presépio ideal,
Emblematizo essa virtualidade.
E chamo-lhe Natal.

Miguel Torga (1982)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Amanhã o Sol



Amanhã o sol vai iluminar a terra de uma forma diferente, vai iluminar o teu rosto, as tuas mãos e os teus caminhos.

Quando olho para ti e te sinto, vejo o que tu não vês. O sangue da tua força e da paixão, o suor do teu sacrifício e do teu esforço, as lágrimas da tua consciência e da gratidão que se fundem dando vida á semente do que desejas construir.

Tens o poder de amar e de entregar o coração a tudo o que fazes e isso encarna-se no sangue, o poder da acção manifestasse no teu suor e é a consequência da tua entrega ao trabalho, o poder da consciência são as tuas lágrimas e elas expressam a tua dor, a tua alegria e gratidão e assim, permites que eu veja que na soma dos três, sangue, suor e lágrimas nasça o teu verdadeiro poder…o teu Poder.

Sinto e sei que o teu “caminho” para chegar até aqui não foi fácil, as tuas armas para tão grande tarefa têm sido, a coragem, a integridade, o propósito, a confiança e o amor, uma tarefa de entrega absoluta, em que te esqueces-te de ti mesmo, mas em que chegas-te a ti próprio.

Por isso quando olho para dentro de ti, eu sei, sei bem dentro de mim, que estamos aqui para aprender e para amar.

É verdade, o amor é mais que apenas palavras, sentimentos ou acções, é sobretudo acção, essa energia renovadora que afasta o medo, mas também é audácia.

Só é capaz de amar quem é realmente forte, apenas os valentes sabem fazê-lo, pois não há grandeza sem entrega, a verdadeira riqueza do ser humano vive naquilo que é capaz de dar de si mesmo.

Autor: O. Florência

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Agostinho da Silva – O pensador do século XX


Agostinho da Silva, que nasceu no Porto e defendeu a Lusofonia, se estivesse vivo, celebraria 106 anos. 
Dono de um percurso académico notável concluiu a licenciatura na Faculdade de Letras do Porto. Como bolseiro estudou na Sorbonne, Paris. Escreveu para a revista Seara Nova, colaboração que manteve até 1938. Em 1935, é demitido do ensino oficial por se recusar a assinar a Lei Cabral, que obrigava todos os funcionários públicos a declararem por escrito que não participavam em organizações secretas, e como tal consideradas subversivas. No seguimento da sua oposição ao Estado Novo de Salazar, é preso pela polícia política em 1943. Abandona o país, no ano seguinte, em direcção à América do Sul, passando pelo Uruguai, Argentina, fixando-se no Brasil. Após a morte de Salazar, regressa a Portugal em 1969, e desde então continua a escrever e a leccionar em diversas universidades portuguesas.

Agostinho da Silva é dos mais paradoxais pensadores portugueses do século XX. O tema mais candente da sua obra foi a cultura de língua portuguesa, num fraternal abraço ao Brasil e aos países lusófonos. Todavia, a questão das filosofias nacionais não é para si decisiva, parecendo-lhe antes uma questão académica. 
O problema de que parte é a procura de uma razão de ser para Portugal: “o que eu quero é que a filosofia que haja por estes lados arranque do povo português, faça que o povo português tenha confiança em si mesmo”, entendendo por «povo português» não apenas os portugueses de Portugal, mas também os do Brasil, laçados de índios e negros, os portugueses de África, tribais e pretos, como também os da Índia, de Macau e de Timor.

Embarcando num sonho universal em que os portugueses que vivem apenas para Portugal não têm razão de ser, apresentou-se aos olhos tantas vezes desconcertados dos seus leitores como um cavaleiro do Quinto Império, um reinado do Espírito Santo. Em todo o caso, obra mais de cigarras que de formigas como era próprio das crianças, afirma querer: “Restaurar a criança em nós, e em nós a coroarmos Imperador, eis aí o primeiro passo para a formação do império”, o que é dizer que o primeiro passo dos impérios está sempre no espírito dos homens, aptos para servir, como os antigos Templários ou os cavaleiros da Ordem de Cristo. Um império sem clássicos imperadores, que leve aos povos do mundo uma filosofia capaz de abranger a liberdade.

É esta uma filosofia que, como gostava de dizer, não parte imediatamente de uma reflexão sobre as ciências exactas, como em Descartes, mas da fé, como em Espinosa. Partir de crenças como ponto vital e tomar como símbolo preferido que a palavra «crer» parece ter a mesma origem que a palavra «coração», fazendo depois como o Infante, abrindo-se à ciência dos seus pilotos, astrónomos e matemáticos. Tudo dito e defendido com a tranquilidade de quem sabe que até hoje ninguém desvendou os mistérios do mundo e conhece por isso os limites das soluções positivas. Assim, seria possível valorizar aquilo que a seu ver nos distinguiria como povo e como cultura. Império do futuro precavido e purgado dos males que arruinaram os quatro anteriores, sem manias de mando, ambições de ter e de poder, sem trabalho obrigatório, sem prisões e sem classes sociais, sem crises ideológicas e metafísicas. Esse já não era o império europeu, dessa Europa ávida de saber e de poder, e por isso esgotada como modelo para os outros 80% da humanidade, menos ávida de poder e mais preocupada com o ser. 
Trazer por isso o mundo à Europa, como outrora levámos a Europa ao mundo, tal a missão da cultura de língua portuguesa, construindo o seu domínio com uma base espiritual e sem base em terra, porque a propriedade escraviza e só não ter nos torna livres.

Tal como deixou escrito em “Diário de Alcestes”: "Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos, não porque tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da Humanidade e da razão; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno."

Autor: A. Pires
Bibliografia - António Quadros, Introdução à Filosofia da História, Lisboa, 1982.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Forte de Elvas saqueado



Em anteriores artigos, falamos de monumentos e património, que conservado mantém-se como legado para as gerações futuras, proporcionando excelentes condições para a visita, hoje, infelizmente, vamos falar de património que está ao abandono e a saque, falamos do Forte de Elvas.

O Forte da Graça foi mandado construir por D. José I, no monte onde se encontrava a antiga capela de Nossa Senhora da Graça. O monte da Graça é um dos pontos mais altos da região, constituindo portanto um local de grande importância estratégica. Durante o cerco de Elvas, no contexto da Guerra da Restauração, o exército espanhol tomou o local e nele instalou uma posição de artilharia, a partir da qual atacou severamente a cidade. A situação repetiu-se durante a Guerra dos Sete Anos, quando Elvas foi novamente sitiada. Finalmente, em 1763, D. José I determinou a construção de uma fortaleza que permitisse completar o circuito defensivo da cidade. Do seu planeamento foi encarregado o Conde de Lippe, que viera de Inglaterra no ano anterior, para dirigir a defesa do reino.
A ermida de Santa Maria da Graça foi destruída, tendo a imagem da Virgem transitado para a capela do forte, donde veio a desaparecer mais tarde com as invasões francesas. A obra foi muito exigente para a região, tendo nela trabalhado 3 a 4 mil homens, entre 1763 e 1792. O forte ficou de imediato conhecido como Forte de Lippe, e mais tarde, por ordem de D. Maria I, por Forte de Nossa Senhora da Graça. A edificação resistiu ao ataque das tropas espanholas durante a Guerra das Laranjas, e ao bombardeamento infligido pelas tropas francesas no contexto da Guerra Peninsular. O forte é uma obra-prima da arquitectura militar europeia do século XVIII, tanto pela originalidade das soluções aí apresentadas, como pela sua monumentalidade.

O reduto propriamente dito é uma torre de planta octogonal, com pisos abobadados, constando de capela no piso térreo e Casa do Governador nos pisos nobres. Por baixo da capela existe uma notável cisterna. O reduto é defendido por três ordens de baterias com canhoneiras.
Mais tarde, também teve fama quando foi transformado em prisão militar. Uma vez que o forte não tinha fornecimento de água, era necessário um suprimento constante do precioso líquido, os voluntários, depois de abastecidos na fonte do marechal, com os barris às costas e sob o calor alentejano, cantavam alegremente:
“Maldito Forte da Graça / escola de deserdados / cemitério de homens vivos / debaixo do chão enterrados”

Sem segurança, o Forte da Graça tem sido alvo de uma vaga de furtos: ladrões levam blocos de granito, varandas e até telhas. A UNESCO já tinha sinalizado o «risco de vandalismo». A Câmara e o Governo tardam em aprovar o plano para proteger este Património Mundial, declarado em Junho do ano passado.
A Câmara, que conduziu o processo de candidatura à UNESCO, diz: ter conhecimento da situação mas alega que nada pode fazer para travar esta onda de pilhagem porque o complexo é propriedade do Ministério da Defesa. Que o Governo não tem feito nada para alterar o estado de «abandono» em que o Forte se encontra desde 2006, quando o Exército retirou o contingente de militares que vigiavam esta unidade 24 horas por dia.
Depois da candidatura, foi feita uma proposta ao Ministério da Defesa e das Finanças, recorda o autarca, que estimava o investimento necessário para restaurar e «tornar visitável» a fortaleza.
Até hoje, não houve qualquer resposta, lamenta o edil, que diz temer as consequências deste impasse: A responsabilidade é muito grande. Daqui por um ano, com a visita dos peritos, a UNESCO pode retirar a candidatura. Aliás, durante o processo de avaliação, a UNESCO alertou o Governo para a delicada situação daquele monumento: «Está isolado, inutilizado e vulnerável a vandalismo», lê-se na decisão final do Comité.

O Exército tem conhecimento do que se está a passar, mas diz estar de ‘mãos atadas’. O Quartel de Elvas, que geria o Forte, foi extinto e nessa altura os militares foram transferidos, o que significa que deixaram de ter necessidade de manter um efectivo permanente na fortaleza, acrescentando que o edifício foi entregue aos ministérios da Defesa e das Finanças. Questionado, o Ministério da Defesa não esclareceu o que pretende fazer com este edifício que, desde 2008, faz parte de uma lista de prédios militares entregues ao Governo para venda.

Não é uma decisão unilateral. Todas estas entidades, sobretudo a Câmara, que gere o bem classificado, e a Defesa, dona do Forte, têm de se entender sobre um modelo de gestão e financiamento favorável para todos, que, por ser património classificado e da esfera pública, esta fortaleza não pode ser vendida.

É conhecida como «obra-prima da arquitectura militar», mas está a desaparecer aos poucos. O Forte da Graça, em Elvas, tem sido alvo nos últimos meses de uma vaga de furtos e vandalismo e enquanto o destino não é traçado, a ruína e destruição alastram no monumento. Até quando! O género humano tem destas coisas, ganância, ignorância, jogos de poder, que todos os dias condenam edifícios inocentes a uma morte lenta e com eles sucumbe a nossa história, património e identidade... PORQUÊ?

O património cultural português agradece e justifica uma acção em memória do passado e da história de Portugal. 

 
Autor: A. Pires

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Quinta da Regaleira - a viagem iniciática no jardim simbólico


Tomando rumo para o ponto mais ocidental da Europa, avista-se a Serra, o imponente palácio da Pena, como a dar as boas vindas aos visitantes. Mais próximo do centro, vemos o palácio da Vila com as suas características únicas. Destacando-se nesta paisagem, o castelo dos Mouros lá do alto observa o movimento na vila. Seguindo a nossa viagem pelo elegante percurso que ligava o Paço Real a Seteais, nos limites do centro histórico da Vila, encontramos os muros e o Palácio da Quinta da Regaleira.
Esta quinta existe desde o Séc. XVII, no entanto, para o relato da sua história não se tornar fastidioso, só vamos referir a mais recente. Construída entre 1904 e 1910, no derradeiro período da monarquia, os domínios românticos outrora pertencentes à Viscondessa da Regaleira, foram adquiridos e ampliados pelo Dr. António Augusto Carvalho Monteiro, para fundar o seu lugar de eleição. Detentor de uma fortuna fabulosa, que lhe valeu a alcunha de “Monteiro dos Milhões”, associou ao seu singular projecto de arquitectura e paisagem, o génio criativo do arquitecto e cenógrafo italiano Luigi Manini, bem como a mestria dos escultores, canteiros que com este haviam trabalhado no Palácio Hotel do Buçaco.

Homem de espírito científico, vastíssima cultura e rara sensibilidade, bibliófilo notável, coleccionador criterioso e grande filantropo, deixou impresso neste livro de pedra a memória espiritual da humanidade, cujas raízes mergulham na Tradição Mítica Lusa e Universal. A arquitectura e a arte do palácio, capela e demais construções foram cenicamente concebidas no contexto de “Jardim de Éden”, salientando-se a predominância dos estilos neo-manuelino e renascentista. A Quinta da Regaleira beneficia do micro-clima da serra, que muito contribui para os luxuriantes jardins, para os nevoeiros constantes e para a sua aura de mistério.

Vamos visitar os principais pontos de interesse. 

O bosque que ocupa a maioria do espaço da Quinta, não está disposto ao acaso. Começando mais ordenado e cuidado na parte mais baixa, é progressivamente mais selvagem até ao topo. Tem diversas espécies de árvores e todas com vários simbolismos. Os lagos, correntes de água as nascentes, estão presentes como símbolo da Vida. Esta disposição reflecte a crença no naturalismo.

O Patamar dos Deuses, alameda que liga a Lógia ao palácio, é marcado por 9 estátuas de divindades greco-romanas, sendo a mitologia clássica uma das inspirações para os jardins da Regaleira. De seguida, surge a Gruta do Oriente que dá entrada para os subterrâneos e com ligação ao portal inferior do poço. Socalcos acima, protegido por vegetação na entrada, está o Poço Iniciático, que se afunda cerca de 27m no interior da terra. Com acesso através de uma monumental escadaria em espiral, sustentada por colunas esculpidas, desce-se ao fundo. No fundo do poço está embutida em mármore, uma rosa dos ventos, uma estrela de oito pontas e uma cruz templária. 
A simbologia do local está relacionada com a crença que a terra é o útero materno de onde provém a vida, mas também a sepultura para onde voltará, e configura-se como um espaço de sagração, de conotações herméticas e alquímicas, onde se intensifica a relação entre a Terra e o Céu. 
O poço está ligado por várias galerias a túneis ou a outros pontos da quinta: à Entrada dos Guardiães, ao Lago da Cascata e ao Poço Imperfeito. Estes túneis, outrora habitados por morcegos afastados pelos muitos turistas que visitam o local, estão cobertos com pedra importada da orla marítima da região de Peniche, pedra que dá a sugestão de um mundo submerso. 

Encontrado o caminho da virtude, vamos dar ao Portal dos Guardiões, uma estrutura cénica rematada por dois torreões laterais e por um mirante central, sob o qual se dissimula uma entrada para o poço iniciático. Em frente situa-se o Terraço dos Mundos Celestes e a Torre do Zigurate. 
Prosseguindo, vamos ter à Torre da Regaleira que foi construída para dar a quem a sobe, a ilusão de se encontrar no eixo do mundo. Por baixo encontramos a Gruta da Leda. 

Depois, num labirinto de bosque e veredas, deparamo-nos com uma magnífica fachada, que aposta no revivalismo gótico e manuelino - a Capela da Santíssima Trindade. Aqui, estão representados várias alegorias cristãs em painéis de mosaico e vitrais. No chão estão representados a Esfera Armilar e a Cruz da Ordem de Cristo, rodeadas de estrelas de cinco pontas. Ainda, tem a particularidade de existir no piso inferior uma cripta despida de ornamentação, com o simbolismo de ter 3 janelas e o pavimento em mosaicos pretos e brancos.

Por subterrâneo ou por veredas vamos ter ao Palácio da Regaleira, a principal construção da Quinta. O edifício é marcado pela presença de uma torre octogonal, de uma arquitectura neo-manuelino e renascentista e exuberante arte decorativa.

Concretiza-se com estes cenários a representação de uma viagem iniciática, por um jardim simbólico, onde podemos sentir a Harmonia das Esferas. Nele se vislumbram referências à mitologia, ao Olimpo, a Virgílio, a Dante, a Camões, à missão templária da Ordem de Cristo, a grandes místicos, aos enigmas da Arte Real, à Magna Obra Alquímica. Nesta sinfonia de pedra revela-se a dimensão poética e profética de uma Mansão Filosofal Lusa. Aqui se fundem o Céu e a Terra numa realidade sensível, a mesma que presidiu à teoria do Belo, da Arquitectura e da Música. 

A Quinta da Regaleira constitui um dos mais surpreendentes e enigmáticos monumentos da Paisagem Cultural de Sintra.

Autor: A. Pires

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Um dia vou olhar para as tuas mãos



Um dia vou olhar para as tuas mãos,
e sentir como sou feita delas.

Saberei que cada linha nelas traçada,
é um jardim onde nunca julguei estar.

Saberei que existo,
porque passei nelas,
sempre serena...
sempre tão serena.

Um dia...
olharei para esse silêncio e ficarei longe,
longe do Caminho que me trouxe até elas.
E direi!

Que não sei de volta o Caminho de Casa...

Mas, os teus olhos profundos irão revelar
os motivos que me trouxeram, desta forma forte e assustada,
simplesmente por saber do dia em que deva migrar com as aves
e não seja capaz!

Um dia.
Vou olhar para as tuas mãos,
e sentir que sempre estive ali ! Inteira! Verdadeiramente viva.
Onde me julgava não ser possível existir.
Vou olhar para elas, e
todos os silêncios vão ter respostas

As palavras não serão escolhidas,
nem os gestos prováveis.

Vou ser capaz de virar os ventos,
e não terei de partir!

Autor: O. Florência 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Elos de progresso científico e social: contributo para a História das Mulheres cientistas em Portugal


A partir de Oitocentos assistiu-se a um acesso cada vez mais generalizado à leitura que paulatinamente atingiu o universo feminino. Não estranharemos, portanto, a imersão num banho cultural mais propício à vontade de as mulheres passarem da leitura à escrita, tornando-se tradutoras selectivas e exímias autoras, pois já leitoras atentas. Subliminarmente, terá sido o desejo de ultrapassar fronteiras, até ali intransponíveis, a movê-las. E estas questões prendem-se com as do poder, como algumas autoras deixam saber.

A entrada da mulher com presença assídua na imprensa diária permitiu uma divulgação mais direccionada para um público-alvo, diferenciado daquele que marcava presença nas colunas de periódicos especificamente femininos. O que se entende, até pela natureza dos mesmos, pois tinham um público restrito bem identificado: eram publicações dirigidas por mulheres para serem lidas por mulheres. Que mulheres eram as que escreviam, na imprensa, para além dos nomes que são sobremaneira conhecidos? Eram mulheres letradas, nascidas no seio da alta e da média burguesias, ou que a elas ascendiam pela educação e/ou casamento. Com a pena colocavam as mãos na massa, ou seja, na escrita, manuscrita como no caso do “Jornal das Creanças”, em 1909, corporizado pelo trabalho de Alda Guerreiro (1878-1943) no litoral alentejano (Santiago do Cacém), ou impressa, como no caso da colecção “Para as Crianças”, dirigida por Ana de Castro Osório (1872-1935), em Setúbal, onde, a partir de 1897 se publicaram os primeiros livros infantis.

Na “rota das letras” sabemos que o primeiro periódico feminino foi O Correio das Modas, criado em Lisboa em 1807, como nos deu a conhecer Ivone Leal. Cerca de três décadas depois, O Correio das Damas: Jornal literário e de modas, fundado em 1836, como se pode ler no editorial, reclamava pretender colmatar a inexistência de um periódico feminino. Dispomos ainda de informação respeitante ao primeiro jornal fundado e dirigido por uma mulher, a Assembleia Litteraria, registando a esse respeito Ivone Leal: “Daí por diante nunca mais deixamos de encontrar nomes femininos a subscrever artigos ou mesmo no cabeçalho das publicações”. Em 1849, Antónia Gertrudes Pusich fundou a Assembleia Litteraria. Jornal d’Instrução não podendo deixar de se realçar a ligação da mulher à causa da educação. É conhecida a primeira obra de autoria feminina, Espelho de Cristina - escrita no século XV por Cristina de Pisan e publicada em Lisboa no ano de 1518 -, como nos dá conta o exaustivo trabalho de levantamento bibliográfico realizado por Regina Tavares da Silva, outra inegável pioneira dos estudos sobre as mulheres em Portugal. Elina Guimarães, notável entre as notáveis, não esquece a Carta apologética em favor e defesa das mulheres, publicada por Gertrudes Margarida de Jesus entre nós em 1761. Por seu turno, queremos lembrar Maria Antónia Fiadeiro, uma das primeiras jornalistas portuguesas a catapultar os estudos sobre as mulheres para as páginas da imprensa generalista contemporânea. Todavia, continuam ainda por decifrar questões, tais como: quem foi a primeira mulher a publicar um texto na imprensa, tout court? Qual foi o primeiro texto assinado por uma mulher a ocupar espaço num jornal generalista ou regional?

O estudo destas fontes permitirá, estamos em crer, desfazer o enigma, tantas vezes dissimulado por ideias estereotipadas, do modo de estar no mundo de todo um grupo biosocial. As suas reivindicações e expectativas aí se manifestam, alinhando com os homens que lhes dão honras de primeira página e com quem querem ombrear. Abraçando a ideia nova e fazendo notícia...


Autor: Isabel Lousada


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Antiga Ermida e Hospital da Luz da Ordem de Cristo


O culto a Nossa Senhora da Luz em Carnide, inicia-se no século XV e tem como principal fomentador Pêro ou Pedro Martins, um habitante local que, segundo conta a história, estaria na Argélia, pelo ano de 1463, onde foi capturado pelos árabes. Durante o tempo que ficou preso, desesperado, terá começado a rezar a Nossa Senhora para que o livrasse daquele tormento pelo que durante trinta dias lhe apareceu uma imagem da Virgem. Em troca da sua liberdade a imagem ter-lhe-á anunciado que em Carnide junto a uma fonte, onde havia algum tempo aparecia uma luz (que muito intrigava os locais), acharia uma imagem sua à qual deveria erguer uma ermida. Pêro Martins foi “miraculosamente” libertado, regressou a Carnide e junto à Fonte do Machado que estava em “hũ espeso bosque” terá descoberto a imagem de Santa Maria por baixo de uma pedra. A população local, naturalmente animada com esta revelação, oferece-se para ajudar na construção de uma ermida no sítio onde foi encontrada a imagem, junto à Fonte do Machado e consagrada a Nossa Senhora da Luz, pelas circunstâncias que conduziram à sua “descoberta”. 
Na realidade pouco ou nada se conhece da primitiva ermida, da qual nos chegaram muito poucos elementos históricos e materiais sabendo-se no entanto que “...é de muito grandíssima romagem, assim de gente de Lisboa e seu termo, como de todo o Reino, e de estrangeiros que à dita cidade vêm...”

Durante o reinado de D. João III, a ermida de Nossa Senhora da Luz foi doada à Ordem de Cristo dando lugar à construção de uma igreja de maiores dimensões, patrocinada pela Infanta D. Maria (1521-1577), irmã do monarca, que conhecedora das virtudes do local, das propriedades benéficas da fonte do Machado e com particular devoção a Nossa Senhora da Luz, irá destiná-la para seu mausoléu. Afirmando o seu poder económico, político e social, a Infanta delineia para o sítio da Luz um projecto que parece assentar claramente na criação, em conjunto com a Ordem de Cristo, de um verdadeiro núcleo espiritual e de auxílio à população local e distante, reiterado quando edifica à sua custa, a construção de um Hospital para acolher enfermos pobres e peregrinos.

Arquitectura religiosa, maneirista e oitocentista, o Convento da Ordem de Cristo, de que apenas subsistem vestígios da área conventual e o transepto, capela-mor da igreja e retro-coro, dando origem a uma planta em T invertido, sendo difícil aquilatar a sua primitiva estrutura. Fachada principal executada no séc. XIX, com remate em frontão triangular, com os vãos rasgados em eixo, composto por portal de verga recta e janelão rectilíneo do antigo coro-alto. Fachadas circunscritas por cunhais apilastrados, rematadas em cornija, surgindo, no antigo transepto, frontão triangular e platibanda plena, a lateral esquerda rasgada por várias janelas rectilíneas, algumas em capialço, que permitem a iluminação intensa do interior. No topo da fachada lateral, a sineira seiscentista, de pequenas dimensões, com ventanas de volta perfeita e cobertura em domo. O interior constitui um interessante exemplar de uma igreja maneirista, com acção mecenática régia, servindo de panteão à Infanta D. Maria. Possui as paredes em cantaria, formando apainelados almofadados de várias tonalidades de calcário, tendo arco triunfal de volta perfeita, assente em pilastras toscanas, flanqueado por retábulos colaterais de talha dourada e policroma, ambos do período barroco joanino. Apresenta coberturas diferenciadas, em aresta no cruzeiro do transepto, com os braços cobertos por abóbadas de berço, todas ornadas por elementos apainelados cruciformes, destacando-se a cobertura da capela-mor, em caixotões, também eles com almofadados recortados, numa bicromia branca e vermelha. Esta tem as paredes divididas num jogo de vários tramos e registos, com ordens arquitectónicas distintas e vazadas por nichos com estatuária. Retábulo-mor de talha dourada, de tipologia por andares, de planta recta, dois registos e três eixos, definidos por quarteirões, compostos por painéis pintados com temática mariana. Ao centro, maquineta vazada, maneirista, com estrutura em dois andares, composto por colunas coríntias, com o terço inferior ornado por grotescos, consistindo na ligação com o retro-coro, entretanto transformado em sacristia, num recurso comum na época, mas de que restam poucos vestígios, talvez o mais conseguido, o de São Vicente de Fora. A zona conventual mantém a mole do primeiro piso da fachada principal, onde se denotam vários elementos de cantaria, portais maneiristas, em arco de volta perfeita e duplas pilastras toscanas, sendo outros em arco abatido, revelando uma reforma no final de Setecentos.

O conjunto edificado constituído por Convento e Hospital e a total delegação da sua administração na Ordem de Cristo, atribui-lhe uma função renovada, na medida em que não assumindo os contornos militares de outrora, tornava-se fundamental conceber novos objectivos. Portugal continuava na sua expansão pelo mundo, nomeadamente na Índia e no Brasil, facto que levava muitos mareantes e navegadores a rumarem aqui antes de embarcarem, dada a sua grande devoção por Nossa Senhora da Luz.

Em 1755, os edifícios do Convento e Hospital sofreram graves danos. O Convento é extinto em 1795 calculando-se que, até 1807, terão aí residido religiosos que assegurariam o funcionamento do culto e da eucaristia. Com a instalação do Colégio Militar no edifício do Hospital, em 1814, passaria o restante conjunto monástico a fazer parte das suas instalações.

O culto a Nossa Senhora da Luz que nasce em Carnide, é fortemente assimilado no restante país e no resto do “mundo ultramarino português” através da Ordem de Cristo que o propaga e implementa. Este conjunto insere-se numa nova dinâmica da Ordem, ainda pouco estudada, com a reestruturação do Convento de Tomar e a construção de duas novas casas em Coimbra (Colégio de Tomar) e Lisboa (N. Sr. Da Luz). Com a destruição do Colégio de Coimbra, Nossa Senhora da Luz torna-se a segunda casa da Ordem de Cristo ainda existente, assumindo um papel primordial na história do seu património arquitectónico, urbano, histórico, monumental e etnográfico.

Autor: A. Pires

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Sociedade em Transformação


“Entre a catarse e a sublimação se enfeita Atena e se constrói uma civilização”

Atendendo às presentes convulsões do tecido politico, económico e social a que assistimos hoje, num mundo, cada vez mais global, virtual e omisso, torna-se necessário rever os modelos actuais, e num movimento de ruptura e ultrapassagem, proceder à constituição de um novo modelo de sustentabilidade.  
Este processo, como em qualquer outro de profundas mudanças, exige uma catarse, ou seja, uma verdadeira purga do nosso modo “instalado” de Ser, de ver e de representar a realidade. A constituição de um novo modelo/representação de um padrão, a ser seguido por todos os membros da uma comunidade, obriga em primeiro lugar, ao reconhecimento, de que os presentes modelos ou interpretações da realidade estão em ruptura e falência, pois a sociedade em geral, encontram-se submetida a modelos economicista.
Assistimos hoje na sociedade a uma profunda crise, a uma profunda ruptura com a nossa visão instalada da realidade. Há que pensar hoje, mais do que nunca, em questões tão fundamentais como “ O que é o Estado”, “ O que é, e representa o povo?”, “ Queremos ou não um modelo que nos priva dos direitos fundamentais? “Diante de um estado-nação que perdeu a sua autonomia e que se vê na dependência directa dos mercados, o que fazer?”.

Para alterar este estado de coisas, há que refletir sobre o estado da nação. A sociedade precisa de construir uma nova visão de “mundo”. Para tal, necessitamos de um profundo processo de “catarse”, entendido como uma verdadeira purga daquilo que constitui o nosso modo de pensar e de agir em sociedade. Contudo, qualquer processo neste sentido, tem que decorrer paralelamente ao lado de um outro processo igualmente importante: o processo de sublimação. É através de um processo de sublimação, que será possível á sociedade civil, converter aquilo que de mais profundamente negativo existe como (medo, indiferença, ignorância, o absentismo politico, o individualismo) em algo positivo, isto é, verdadeiramente “fazer politica”, ou seja, trabalhar em prol do interesse público e do bem comum, acima de interesses pessoais. Este trabalho obriga a rever todos os papeis tradicionais: Do Estado, das Empresas, dos Bancos, das Instituições, em suma o papel dos cidadãos, e sobretudo rever o exercício da verdadeira cidadania.

Só através dos processos de catarse e de sublimação é que poderemos construir uma nova “Atena”. Esta nova Atena, entendida verdadeiramente, como a possibilidade de uma nova “pólis”. Atena enquanto, mito explicativo, ou seja, uma construção humana, que pretendeu explicar e interpretar a realidade social enquanto tal. Como mito fundador, Atena permitiu aos gregos afirmar o processo de autonomia e de afirmação da identidade. Precisamos de reconstruir a nossa história, ou seja construir essa nova “Atena”.

Autor: O. Florência