quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Universidade de Coimbra - 7 Séculos em prol da Cultura


A Universidade de Coimbra é uma das universidades mais antigas na Europa, no Mundo e a mais antiga de Portugal. 
A sua história remonta ao século seguinte da fundação da nação portuguesa, dado que foi criada no século XIII, em 1290, mais concretamente a 1 de Março, quando foi assinado em Leiria, pelo Rei D. Dinis I, o documento que criou a Universidade e pediu ao Papa a confirmação. 
A universidade, inicialmente instalada na zona do actual Largo do Carmo, em Lisboa, foi transferida para Coimbra, para o Paço Real da Alcáçova. Voltou para Lisboa e regressou a Coimbra. Ficou nesta cidade até 1377 e voltou de novo para Lisboa neste ano. Permaneceu em Lisboa até 1537, data em que foi transferida definitivamente para Coimbra, por ordem de D. João III. Recebeu os seus primeiros estatutos em 1309, já no reinado de D. Manuel I.

Em Portugal, como um pouco por todo o mundo, a ideia da instituição Universidade de Coimbra encontra-se intimamente ligada à Alta Universitária, um conjunto arquitectónico heterogéneo de que se destacam as construções do chamado Estado Novo e, sobretudo, o Páteo e Paço das Escolas, dominados pela célebre Torre da Universidade. Foi o Paço das Escolas que aglutinou, todas as Faculdades da Universidade de Coimbra, após a instalação definitiva nesta cidade. É um verdadeiro percurso itinerante de quase três séculos entre Lisboa e a urbe do Mondego. Quando em Coimbra, os Estudos Gerais (mais tarde designados Universidade) distribuíram-se por localizações diversas, destacando-se os edifícios próximos do Mosteiro de Santa Cruz e o próprio Paço da Escola.

Vamos fazer uma visita aos principais monumentos de interesse desde a sua fundação:

Sala Grande dos Actos é a principal sala da Universidade. É também conhecida por Sala dos Capelos uma vez que, ainda hoje, é utilizada nas cerimónias académicas. 
Quando visitar a Sala dos Capelos poderá visitar também a Sala do Exame Privado e a Sala das Armas. 
A Sala do Exame Privado fazia parte integrante da ala real do palácio. Foi câmara real, ou seja, o local onde o monarca pernoitava. Também foi nesta sala que se realizou a primeira “reunião” entre o Reitor D. Garcia de Almeida e os lentes (professores), no dia 13 de Outubro de 1537, data da transferência definitiva desta instituição para Coimbra. 
A Sala das Armas fazia parte da ala real do antigo paço. Alberga a panóplia das armas da Guarda Real Académica, que ainda hoje são utilizadas pelos Archeiros nas cerimónias académicas solenes.
 
Casa da Livraria, nome por que era conhecida a Biblioteca Joanina, recebeu os primeiros livros depois de 1750, sendo a construção do edifício do século XVIII. O edifício tem três andares e alberga cerca de 200.000 volumes, havendo no piso nobre cerca de 40.000. Volumes raros e históricos de uma importância notável.
 
Prisão Académica, resultante da condição privilegiada da Universidade, seria instalada, em dois antigos aposentos, sob a Sala dos Capelos. Sendo então transferida para as infra-estruturas da Biblioteca Joanina que, por seu turno, incorporara, quando da sua edificação, os restos arruinados do que fora o antigo cárcere do Paço Real, documentando o único trecho de cadeia medieval subsistente em Portugal.

Porta Férrea e Via Latina, destinada a dar solenidade à entrada do recinto universitário, constitui a primeira obra de vulto empreendida pela Escola após a aquisição do edifício, por isso idealizada como um arco triunfal, de dupla face (na tradição da porta-forte militar), evocada no programa escultórico, alusivo às quatro faculdades (Teologia, Leis, Medicina e Cânones) e aos dois monarcas fundamentais na sua história (D. Dinis, que fundou a Universidade, e D. João III, que a transferiu para Coimbra). 
A Via Latina, erigida da segunda metade do século XVIII, constitui, na essência, um corpo de aparato, adossado (encostado) ao alçado interno norte do palácio escolar, como solução hábil para facilitar os acessos entre o Paço Reitoral, a Sala dos Capelos e os Gerais.

Torre da Universidade tem 33,5 metros de altura, constitui o emblema tradicional de Coimbra. Começou a construir-se em 1728 e foi terminada em 1733. No topo sobre o relógio, abre-se um miradouro do qual se desfruta uma panorâmica esplendorosa da cidade e do vale do Mondego. Nesta Torre está colocada, entre outros sinos, a célebre «cabra», que marcava as horas do despertar e do recolher dos estudantes. 

 

Capela S. Miguel foi construída no início do século XVI, substituindo uma anterior, provavelmente do século XII. A sua estrutura arquitectónica é manuelina, estilo decorativo visível sobretudo nos janelões da nave central e no arco cruzeiro.

Durante a ditadura do Estado Novo foi palco de várias actividades de gerações estudantis na luta contra o regime, pela Liberdade, os Direitos Humanos, a Democracia, estando empenhados os mais diversos intelectuais e pensadores portugueses. 

Com o 25 de Abril de 74, com o novo período da vida portuguesa e universitária, foi alvo de várias reformas para acompanhar a nova dinâmica política. 
A Universidade de Coimbra, a Alta e a Sofia foram classificadas como Património Mundial pela UNESCO no ano de 2013.

Continuando a manter o renome de outros tempos, é hoje uma instituição de referência, e durante os seus mais de sete séculos de existência, foi crescendo um pouco por toda a cidade, promovendo a divulgação da cultura portuguesa no mundo. 


Autor: A. Pires 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Zeca Afonso - manter vivos o espírito e a lição de dignidade


José Manuel Cerqueira Afonso Santos, conhecido por Zeca Afonso, nome com o qual assinava os seus discos, considerado durante muito tempo músico de intervenção, é para Francisco Fanhais, companheiro de cantigas e de estrada, e actualmente dirigente da Associação José Afonso: “muito mais do que um cantor ou um músico de intervenção. Essa designação serve para menosprezar toda a parte poética e musical do autor e é um álibi muito bom para que os divulgadores de música o possam banir com toda a tranquilidade”. “Cada uma das canções de José Afonso faz parte de um conjunto de grande valor musical e poético que, penso, está ainda por descobrir”, diz Francisco Fanhais.

Também o jornalista Viriato Teles, autor do livro As voltas de um andarilho – Fragmentos da vida e obra de José Afonso, considera: “que está ao nível dos grandes criadores musicais do mundo, e ao contrário do que habitualmente fazemos, que é comparar os portugueses com artistas estrangeiros, acha mesmo que Zeca Afonso “está ao nível de um Bob Dylan, John Lennon, Léo Ferré ou de um Jacques Brel”.
Considerar a obra apenas do ponto de vista da cantiga de intervenção, “é do mais redutor que existe, até porque mesmo nesse campo ele esteve sempre à frente do tempo dele”, Viriato Teles, não hesita mesmo em afirmar que José Afonso era “um génio, tal como Carlos Paredes”. Quando José Afonso morreu Paco Ibañez disse: “que Zeca teve azar de ter nascido português, se tivesse nascido nos Estados Unidos estaria ao nível desses grandes criadores mundiais”.
Gravou vários discos entre os quais se destacam: Cantares do andarilho; Contos velhos, novos rumos; Traz outro amigo também; Cantigas do Maio; Eu vou ser como a toupeira; Venham mais cinco; Coro dos tribunais; Com as minhas tamanquinhas; Enquanto há força; Fura, fura e Fados de Coimbra;
Muitas das suas músicas continuam a ser gravadas por numerosos artistas portugueses e estrangeiros. Calcula-se que existam actualmente mais de 300 versões de canções suas gravadas por mais de uma centena de cantores, o que faz de Zeca Afonso um dos compositores portugueses mais divulgados a nível mundial. E não é apenas Grândola vila morena, se há de facto um músico português que se universalizou foi o Zeca, se calhar tanto ou mais do que Amália, embora esta tenha tido mais visibilidade.

Entre os espectáculos que por todo o país e no estrangeiro deu, fez, participou, sempre com a sua generosidade, o apego e a solidariedade com as causas do povo, tem que ser assinalado o concerto no Coliseu de Lisboa. Neste concerto não deixaram de actuar os amigos e companheiros de canções e de luta, Rui Pato, Francisco Fanhais, Fausto, Júlio Pereira, Janita, Octávio Sérgio, Lopes Almeida, Durval Moreirinhas, António Sérgio, bem como a recordação de Adriano Correia de Oliveira, tantos entres outros que encheram a sala e a fez transbordar de emoção, pois, muitos de nós sabíamos que seria o último concerto da sua vida, e o Zeca também!

O seu trabalho é apreciado pelo país inteiro e no estrangeiro, e com a incidência política que as suas canções ganharam, indiscutivelmente representa uma parte muito importante da cultura portuguesa.
Apesar de reconhecido, José Afonso não tem ainda hoje o estatuto que devia ter na música portuguesa.

Fique com José Afonso, na canção: "Tinha uma sala mal iluminada" do álbum Enquanto há força.


(...)
A velha história ainda mal começa
Agora está voltando ao que era dantes
Mas se há um camarada à tua espera
Não faltes ao encontro sê constante

Há sempre quem se prante à tua mesa
Armado em conselheiro ou penitente
A luta agora está de novo acesa
E o caminho é só um é sempre em frente
(...)



Autor: A. Pires

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Caminho


Longe é a noite para aquele que vela
Longe é o caminho para aquele que está fatigado
Longe é a série para os ignorantes que desconhecem a boa lei.

Nem no espaço Celeste,
Nem no fundo do Oceano,
Nem numa caverna nas Montanhas,
Em sítio nenhum do Mundo se encontrará um lugar
Aonde aquele que aí vive
não possa ser vencido pela morte.

De ossos é feita a cidade,
Coberta de carne e de sangue
Onde a velhice e a morte, o orgulho e a hipocrisia
Procuram guarida.

O que é o sorriso, o que é a alegria
Quando tudo o que existe,
está mergulhado pelas trevas.

Não procurareis vós a Luz!


Autor: António Albino Machado †

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O problema da habitação nos anos 70


Conferência sobre a experiência do SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local) nos bairros degradados de Lisboa e a organização dos moradores na Luta pela Habitação, por ALBANO PIRES.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Miguel Torga


"Ninguém me encomendou o sermão, mas precisava de desabafar publicamente. Não posso mais com tanta lição de economia, tanta megalomania, tão curta visão do que fomos, podemos e devemos ser ainda, e tanta subserviência às mãos de uma Europa sem valores"
Miguel Torga - 1993

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Monte da Lua ou Serra de Sintra


Chegámos ao promontório do cabo do mundo, que apela a todos os nossos sentidos para uma outra percepção. O que haverá no Monte da Lua que nos cativa e encanta de tal forma que ficamos deslumbrados a cada passo que damos. 
Dizem que é aqui que mora a deusa Cíntia que em noites de lua cheia dança com as fadas e mouras encantadas, príncipes, elfos e duendes, onde a cada brisa que traz nevoeiro do mar se escreveram lendas e histórias que até hoje perduram na memória deste lugar. 
Mas deixemos a deusa Cintia dançar nos picos desta Serra serpentária e vamos falar um pouco do Monte que á Lua pertence, fazendo o caminho descendente a partir do alto dos penedos.

Na Antiguidade Clássica ficou conhecida por Promontorium Lunae ou Monte da Lua, pela forte tradição de culto astrolátrico dedicado á Lua, desde os tempos da pré história até á dominação romana, prosseguindo ao longo dos séculos com a igreja medieval condenando repetidamente o uso de amuletos em forma de Lua. Esses cultos atingiram grande vigor na Serra de Sintra que se estende e termina no Cabo da Roca marcando o ponto mais ocidental do continente europeu. 
Sintra passou por várias grafias ao longo dos séculos, há quem afirme que Sintra advirá do “sin”, que para os babilónios significaria montanha e “tra” pelos lusitanos pois conteria em si a três fases da Lua, também há quem refira que “suntria” seria mais antiga forma medieval conhecida, a mesma aponta para o indo-europeu, “astro luminoso”, seja qual for a denominação Cynthia, Xentra ou Suntria , foi através dos Fenícios, Celtas, Lusitanos, Romanos, Mouros, que Sintra se tornou na riqueza cultural que compõe esta Serra.

Sintra foi classificada Património Mundial no âmbito da Paisagem Cultural em 1995, a candidatura de Sintra a Património Mundial exigia uma mistura singular de locais naturais e culturais exemplares, a Serra de Sintra corresponde-lhe de uma forma excepional, quem a vê de longe vislumbra uma cadeia montanhosa granítica coberta de densa floresta, quem a vê mais de perto, observa marcas culturais de uma riqueza surpreendente que nos fala de vários séculos da história de Portugal.

As várias culturas dos povos que aqui se instalaram e fizeram deste lugar a sua pátria, misturam-se e espalham-se pela paisagem, em socalcos de memórias vivas que estão abertas aos nossos olhos e outras suspensas no tempo mas que falam aos nossos sentidos. 
Erguido sobre um maciço rochoso num dos cumes da Serra ergue-se o chamado Castelo dos Mouros, uma pesquisa arqueológica revelou uma primitiva ocupação datada do sec X a VIII a.c., mas terá sido com a invasão muçulmana a partir do Séc. VIII que foi construída a primitiva fortificação a fim de controlar as vias terrestres que ligavam Sintra a Mafra, Cascais e Lisboa. 
Do alto desta fortificação para além da vista privilegiada que se estende até ao oceano avistamos o imponente Palácio Nacional de Sintra, ou Palácio da Vila, terá sido residência dos governantes mouros da região, constituído por vários corpos edificados ao longo das sucessivas ocupações. Quando Sintra foi tomada aos mouros nos Sec. XII, D. Afonso Henriques doou o Palácio e o Castelo a Gualdim Pais, Grão-mestre da Ordem dos Templários em Portugal. Foi com D. João I que surgiram as primeiras alterações no Palácio, as chaminés cónicas, o edifício central bem como várias salas. A estas alterações se seguiram outros projectos de remodelação nos séc. XV e XVI, de salientar o estilo “manuelino” inspirado nos descobrimentos, bem como a influencia islâmica chamado o estilo “mudejar”.

No coração da Serra temos o Convento de Santa Cruz dos Capuchos, mandado construir por D. Álvaro de Castro no séc. XVI, famoso pelo extremo da sua pobreza, seja da construção como das próprias condições de vida á época, foi habitado até finais do Sec. XVIII sendo depois abandonado com a extinção das ordens religiosas. 

No Séc. XIX, Sintra oferece-nos o que de mais belo e sublime o movimento romântico criou, em redor do centro histórico surgem vários palacetes como Monserrate de estilo oriental, envolvido por um verdadeiro parque botânico com plantas e arvores vindas de vários pontos do mundo, de quintas senhoriais como a Quinta do Relógio de inspiração neo-mourisca ou a Quinta da Regaleira onde a simbólica nos faz avançar para dentro e ao fundo de nós.

Várias personalidades imortalizaram este Promontório, desde pintores, músicos, compositores, poetas, escritores, historiadores, mas entre todas as personalidades que se renderam e se inspiraram em Sintra, uma houve que mudou o curso da sua história, D. Fernando II, o rei artista, homem de vasta cultura e sensibilidade refinada, fez nascer no Alto desta Serra o mais magnifico Palácio, fruto de um sonho maior, o Palácio da Pena e o seu Parque deslumbrante, onde está inserido o Chalet da Condessa D’Edla, segunda mulher de D. Fernando, símbolo de um amor que sobreviveu ao fogo e ao tempo. 

Seria tarefa difícil enumerar todos os encantos e recantos de Sintra, nada como visitá-la e senti-la, pois é um daqueles locais onde a mão dos deuses se aprimorou.

Autor: O. Florência

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Cabo Barbárico ou Cabo Espichel


Sob a intensa luz do sol que cobre de ouro e azul a imensidão do mar, este maciço calcário que se estende até á Serra da Arrábida, mais parece um monstro marinho que dorme sob os nossos pés. Não há vento, nem ninguém, apenas os olhos para admirar esta beleza absoluta e revelar o indizível, numa dualidade que se divide entre a natureza e a mão do homem. Os promontórios não são apenas acidentes geográficos da natureza, são também lugares de história, tradição e religião, reactualizados ao longo do tempo, na sequência das sucessivas ocupações, desde os povos pré-históricos, fenícios, romanos, muçulmanos e cristãos, sendo que o Cabo Espichel não fugiu á regra.

Para entendermos porque se chamou Cabo Barbárico, temos de recuar no tempo. Este promontório foi habitado por um povo, os sárrios, provenientes de Tiro, que aqui formaram uma colónia cuja capital era Salácia. É ao caldeu que se vai buscar a origem do nome “sárrio” ou tsar, que significa púrpuro. Os fabricantes destas cores eram chamados de tsarah, que os romanos, no seu idioma, deram o nome de barbarii, ou barbáricos. Assim o nome de Cabo Barbarium foi dado a este local que é hoje o Cabo Espichel. 
No livro “Antiguidades da Lusitânia”, André de Resende descreveu que nestas paragens havia um certo género de marisco, dos quais se geravam uns bichinhos vermelhos como o sangue e aromáticos. Depois de secos, feitos em pó, serviam para tingir de púrpura ou o carmesim. Também, nasciam umas flores silvestres, que colhidas na primavera e depois de secas faziam a cor púrpura com que se vestiam os Imperadores. Assim, os mercadores romanos vinham ao promontório comercializar com os barbáricos a fina “grãn” que levavam para Roma e às feiras de Tiro por grande valor e estima.
Enquanto povo, procuravam as montanhas e os promontórios para instalarem as suas comunidades, acreditando que os deuses moravam em tais lugares. Os romanos, por outro lado, evitavam esses lugares, exactamente pelo mesmo motivo, criando colónias noutros locais. Porém, com o tempo e as sucessivas ocupações dos povos que por aqui passaram, a fé dos homens mudou e este lugar também.

O Santuário da Nossa Senhora da Pedra Mua ou Santuário do Cabo Espichel é um conjunto arquitectónico que envolve património edificado e património natural. A primeira categoria está directamente ligada à lenda da “Pedra Mua”, a versão mais conhecida remonta ao séc. XV, refere que a Nossa Senhora foi transportada numa jumentinha desde o mar até ao topo do cabo. É neste quadro, que as pegadas da jumentinha se cruzam com a identificação de pistas de dinossauros impressas na rocha. Toda esta carga simbólica proporcionou um terreno fértil para a tradição popular expressar a sua fé, culminando com o esplendor das romarias e festas consagradas à Nossa Senhora do Cabo Espichel.
Esta atmosfera religiosa à volta da lenda deu origem à mais antiga construção do santuário, a Ermida da Memória. É um pequeno templo quatrocentista de planta rectangular, simples e harmoniosa, onde no seu interior e na fachada sul figuram painéis de azulejos que narram o historial do santuário, sendo este imóvel edificado por iniciativa dos primeiros peregrinos. 
A Igreja de Nossa Senhora do Cabo, datada do Séc. XVIII, construção de iniciativa da Casa Real Portuguesa, tem no interior da capela as paredes revestidas a mármore, destacam-se, ainda, os frescos e pinturas a óleo de estilo ilusionista de perspetiva, executadas por Lourenço da Cunha, as únicas que subsistem até hoje deste artista.

Ladeando o Santuário em corpos paralelos, temos a Casa dos Cirios ou simplesmente hospedarias, construídas também no Sec. XVIII, com o objectivo de substituir as casas dos romeiros que se dispunham em volta do antigo templo. Devido à grande afluência de peregrinos, D. José I mandou construir a Casa da Água a fim de abastecer o local, provindo a mesma da vizinha povoação da Azoia conduzida pelo Aqueduto. 
Também edificada por D. José I, temos a Casa da Ópera, que incluía cenários e acomodações para público e artistas. Eram organizados espectáculos com companhias famosas para animar os festejos. 
Não podemos esquecer o Farol, luz dos navegantes de outrora e de hoje. Já em 1430 a Irmandade deste santuário tinha instalado um farolim que antecedeu o que é hoje a actual Torre.

É esta dualidade que faz do Cabo Espichel um lugar especial. Entre o património construído de caracter religioso e militar e as escarpas erguidas de um mar intensamente azul, invocando assim o enigma da natureza primordial que ao longe vai beijar o Monte da Lua.

Autor: O. Florência

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Solstício de Inverno 2012

Solstício de inverno.
Aqui estou novamente a festejá-lo
À fogueira dos meus antepassados
Das cavernas.
Neva-me na lembrança,
E sonho a primavera
Florida nos sentidos.
Consciente da fera
Que nesses tempos idos
Também era,
Imagino um segundo nascimento
Sobrenatural
Da minha humanidade.
Na humildade
Dum presépio ideal,
Emblematizo essa virtualidade.
E chamo-lhe Natal.

Miguel Torga (1982)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Amanhã o Sol



Amanhã o sol vai iluminar a terra de uma forma diferente, vai iluminar o teu rosto, as tuas mãos e os teus caminhos.

Quando olho para ti e te sinto, vejo o que tu não vês. O sangue da tua força e da paixão, o suor do teu sacrifício e do teu esforço, as lágrimas da tua consciência e da gratidão que se fundem dando vida á semente do que desejas construir.

Tens o poder de amar e de entregar o coração a tudo o que fazes e isso encarna-se no sangue, o poder da acção manifestasse no teu suor e é a consequência da tua entrega ao trabalho, o poder da consciência são as tuas lágrimas e elas expressam a tua dor, a tua alegria e gratidão e assim, permites que eu veja que na soma dos três, sangue, suor e lágrimas nasça o teu verdadeiro poder…o teu Poder.

Sinto e sei que o teu “caminho” para chegar até aqui não foi fácil, as tuas armas para tão grande tarefa têm sido, a coragem, a integridade, o propósito, a confiança e o amor, uma tarefa de entrega absoluta, em que te esqueces-te de ti mesmo, mas em que chegas-te a ti próprio.

Por isso quando olho para dentro de ti, eu sei, sei bem dentro de mim, que estamos aqui para aprender e para amar.

É verdade, o amor é mais que apenas palavras, sentimentos ou acções, é sobretudo acção, essa energia renovadora que afasta o medo, mas também é audácia.

Só é capaz de amar quem é realmente forte, apenas os valentes sabem fazê-lo, pois não há grandeza sem entrega, a verdadeira riqueza do ser humano vive naquilo que é capaz de dar de si mesmo.

Autor: O. Florência

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Agostinho da Silva – O pensador do século XX


Agostinho da Silva, que nasceu no Porto e defendeu a Lusofonia, se estivesse vivo, celebraria 106 anos. 
Dono de um percurso académico notável concluiu a licenciatura na Faculdade de Letras do Porto. Como bolseiro estudou na Sorbonne, Paris. Escreveu para a revista Seara Nova, colaboração que manteve até 1938. Em 1935, é demitido do ensino oficial por se recusar a assinar a Lei Cabral, que obrigava todos os funcionários públicos a declararem por escrito que não participavam em organizações secretas, e como tal consideradas subversivas. No seguimento da sua oposição ao Estado Novo de Salazar, é preso pela polícia política em 1943. Abandona o país, no ano seguinte, em direcção à América do Sul, passando pelo Uruguai, Argentina, fixando-se no Brasil. Após a morte de Salazar, regressa a Portugal em 1969, e desde então continua a escrever e a leccionar em diversas universidades portuguesas.

Agostinho da Silva é dos mais paradoxais pensadores portugueses do século XX. O tema mais candente da sua obra foi a cultura de língua portuguesa, num fraternal abraço ao Brasil e aos países lusófonos. Todavia, a questão das filosofias nacionais não é para si decisiva, parecendo-lhe antes uma questão académica. 
O problema de que parte é a procura de uma razão de ser para Portugal: “o que eu quero é que a filosofia que haja por estes lados arranque do povo português, faça que o povo português tenha confiança em si mesmo”, entendendo por «povo português» não apenas os portugueses de Portugal, mas também os do Brasil, laçados de índios e negros, os portugueses de África, tribais e pretos, como também os da Índia, de Macau e de Timor.

Embarcando num sonho universal em que os portugueses que vivem apenas para Portugal não têm razão de ser, apresentou-se aos olhos tantas vezes desconcertados dos seus leitores como um cavaleiro do Quinto Império, um reinado do Espírito Santo. Em todo o caso, obra mais de cigarras que de formigas como era próprio das crianças, afirma querer: “Restaurar a criança em nós, e em nós a coroarmos Imperador, eis aí o primeiro passo para a formação do império”, o que é dizer que o primeiro passo dos impérios está sempre no espírito dos homens, aptos para servir, como os antigos Templários ou os cavaleiros da Ordem de Cristo. Um império sem clássicos imperadores, que leve aos povos do mundo uma filosofia capaz de abranger a liberdade.

É esta uma filosofia que, como gostava de dizer, não parte imediatamente de uma reflexão sobre as ciências exactas, como em Descartes, mas da fé, como em Espinosa. Partir de crenças como ponto vital e tomar como símbolo preferido que a palavra «crer» parece ter a mesma origem que a palavra «coração», fazendo depois como o Infante, abrindo-se à ciência dos seus pilotos, astrónomos e matemáticos. Tudo dito e defendido com a tranquilidade de quem sabe que até hoje ninguém desvendou os mistérios do mundo e conhece por isso os limites das soluções positivas. Assim, seria possível valorizar aquilo que a seu ver nos distinguiria como povo e como cultura. Império do futuro precavido e purgado dos males que arruinaram os quatro anteriores, sem manias de mando, ambições de ter e de poder, sem trabalho obrigatório, sem prisões e sem classes sociais, sem crises ideológicas e metafísicas. Esse já não era o império europeu, dessa Europa ávida de saber e de poder, e por isso esgotada como modelo para os outros 80% da humanidade, menos ávida de poder e mais preocupada com o ser. 
Trazer por isso o mundo à Europa, como outrora levámos a Europa ao mundo, tal a missão da cultura de língua portuguesa, construindo o seu domínio com uma base espiritual e sem base em terra, porque a propriedade escraviza e só não ter nos torna livres.

Tal como deixou escrito em “Diário de Alcestes”: "Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos, não porque tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da Humanidade e da razão; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno."

Autor: A. Pires
Bibliografia - António Quadros, Introdução à Filosofia da História, Lisboa, 1982.