quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O Aqueduto das Águas Livres é Eterno


A intenção da construção do Aqueduto começa a ter forma com a ideia de levar a água das nascentes das Águas Livres, em Belas, para a cidade de Lisboa, nos reinados de D. Manuel, D. João III e D. Sebastião.  
Em 1571, Francisco de Holanda, para garantir o abastecimento de água à capital, propôs ao rei D. Sebastião a reconstrução de um aqueduto e da antiga barragem romana de Olíssipo. - (mais tarde voltaremos a Olíssipo e ao seu simbolismo) -. Só no reinado de D. João V, em pleno Séc. XVIII foi decidido avançar com a construção, tendo os custos sido integralmente suportados pela população de Lisboa, através de taxas sobre a carne, o azeite e o vinho.  
A Directora do Museu da Água, Margarida Ruas, descreve: «O Aqueduto representa o que de melhor e pior existe em nós enquanto povo, enquanto comunidade. As pessoas de Lisboa colectaram-se durante anos para pagar estas obras. Entregavam uma quantia todos os anos, um imposto, que era destinada exclusivamente às obras, mesmo sabendo que só na geração dos filhos ou dos netos é que ela estaria pronta. Foi de uma generosidade e entrega notáveis. Ao mesmo tempo, representa o pior devido às confusões que se geraram, à forma como muitas pessoas foram afastadas do projecto para dar lugar a outras, às invejas».  
Uma colecta que foi paga duas vezes, devido à falta de escrúpulos da Corte durante a ocupação espanhola e da dinastia filipina: o dinheiro que havia sido conseguido para o aqueduto foi totalmente gasto na festa de coroação de D. Filipe! «E, mais uma vez, o povo de Lisboa voltou a pagar esse imposto, num gesto grandioso de cidadania e generosidade», realça Margarida Ruas.  
O projecto e a construção do aqueduto devem-se essencialmente ao brigadeiro Manuel da Maia, ao sargento-mor Custódio Vieira, ao capitão de engenharia Carlos Mardel e ao procurador da cidade, Cláudio Gorgel do Amaral, pela sua determinação em resolver o problema do abastecimento de água à cidade de Lisboa. O rei D. João V, saturnino por devoção, assinou em 12 de Maio de 1731, um sábado, o decreto régio para a construção do Real Aqueduto das Agoas Livres. O tempo passou, e as obras, lá foram iniciadas sob a direcção do arquitecto Manuel da Maia e do sargento-mor Custódio de Vieira.  
Apesar de ter começado a abastecer de água uma rede de chafarizes na cidade de Lisboa a partir de 1748, só ficou concluído em 1834.

Vamos iniciar a nossa visita, percorrendo alguns dos locais mais simbólicos e belos desta monumental obra. Evidenciando influências góticas em pleno período barroco, nos 14km de extensão desde a nascente principal e diversos aquedutos de distribuição, num total de 58km, possui, na sua parte mais monumental, sobre o Vale de Alcântara, um conjunto de 35 arcos, de autoria de Custódio Vieira.  Os primeiros 18 arcos e os 3 últimos são de volta inteiros, os restantes 14 arcos são em ogiva. O arco maior mede 65m de altura e 32m de largura. Com todos estes números tem alguns recordes mundiais: “É a maior ponte de pedra do Mundo, é a maior obra de engenharia hidráulica do Mundo e tem o maior arco em ogiva do Mundo”. Na sua galeria interior tem dois corredores, com o nome de Passeio dos Arcos, pelos quais se pode caminhar e disfrutar de uma vista panorâmica magnífica.

Porém, também teve o seu registo mais terrível. Os passeios foram interditados em 1844 devido aos crimes ali cometidos por Diogo Alves, um espanhol, nascido no bispado de Lugo, que veio viver para Lisboa ainda novo. O frio assassino acobertava-se no aqueduto e esperava que alguém passasse. Na sua maioria, eram lavadeiras ou trabalhadores de regresso a casa. Despojava-os de tudo quanto levavam e a seguir lançava-os do alto dos arcos. Algumas vezes, atirou também os filhos pequenos e bebés das lavadeiras. Foi apanhado pelas autoridades em 1840, na sequência do assassinato da família de um médico cuja casa assaltara, e, por isso, sentenciado à forca. Segundo consta, o decreto real de abolição da pena de morte foi adiado alguns dias para que Diogo Alves fosse enforcado. Só depois a pena foi abolida, sendo Portugal dos primeiros países a abolir a pena de morte.

Como não podia deixar de ser, também está ligado à gastronomia. Com certeza já devem ter ouvido o nome do bairro existente na encosta de Campolide. Esse bairro, designado Bairro da Serafina, porque a dona de taberna, chamada Serafina, era cozinheira exímia e durante os anos da construção era aí que almoçavam os Mestres, Companheiros, Aprendizes que construíram esta obra notável. O livro “As Receitas da Serafina” reúne uma boa investigação realizada por Margarida Pereira-Mueller.

Seguindo o caminho das águas, chegamos ao Reservatório da Mãe de Água das Amoreiras, construído entre 1746 e 1834, segundo planos de Carlos Mardel, a quem se deve, entre outras obras, o arco triunfal que celebra a obra de D. João V.
A Mãe de Água é um local tranquilo, de uma beleza despojada de qualquer artifício: o corredor estreito e baixo leva-nos a uma sala redonda com a nascente encanada no meio, como se fosse um pequeno lago. A água, tranquila à superfície, vai correndo célere para um dos ramais existentes na entrada. Esse é o único barulho que se ouve, o da água a correr pelas levadas dentro das galerias silenciosas.
Sem luz artificial, a claridade é obtida através de pequenas janelas colocadas na abóbada do tecto, que ao longo do dia vai permitindo ver o local com diferentes tonalidades de cor. O mesmo acontece na galeria da entrada. Olhando para o fundo, a luz que entra pelos respiradouros permite observar tudo com diferentes cores. Ao fundo, parece azul, mas mais ao perto a galeria é inundada por um laranja-pálido. Estes respiradouros oferecem um autêntico espectáculo natural de luz, ar, sombra, respiração e silêncio, aliado à beleza da pedra.

Em seguida, eis-nos chegados a um dos ex-líbris desta teia monumental de galerias: a Torre das Catorze Janelas. De fora, é apenas uma construção de pedra ao nível do chão. Mas por dentro, depois de descer umas escadas íngremes, vemos uma sala rectangular aonde vêm dar três nascentes de água. Para os mais esotéricos, esta torre é mítica. “Uns dizem que esta torre muito alta é encimada por catorze janelas exactamente iguais e que esconde a energia necessária para reerguer Portugal, para o transformar para o futuro. Outros dizem que está aqui a energia para a concretização do Quinto Império».

O Aqueduto foi o único monumento que não sofreu danos durante o Terramoto de 1755. Resistiu, e dominante numa Lisboa destruída tornou-se o símbolo do futuro dos Portugueses, porque a nova cidade seria construída com o mesmo conhecimento e saber.
Classificado como Monumento Nacional, é um dos mais extensos sistemas de abastecimento de água existentes no mundo, alcançando os 58 quilómetros, em descida gravítica com média 3mm por cada metro. O seu nome deve-se ao facto de as águas correrem apenas pela força da gravidade, isto é, livremente.
Actualmente faz parte do Museu da Água, criado em 1987, que organiza visitas e passeios em datas e horas que variam consoante as estações.

O Aqueduto das Águas Livres guarda um conhecimento, um saber únicos, uma obra hidráulica notável, uma beleza inigualável, o trabalho de inúmeros pedreiros que desbastaram as pedras para lhe dar forma, o único monumento câmara escura jamais construído, que permite o reflexo da paisagem exterior num jogo de cor, luz, sombra, aromas que toca o sagrado e que jamais nos separa do Todo. Um sistema de distribuição de água duplo, que os Portugueses deixam à Humanidade.

Autor: A. Pires

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A um deus desconhecido


Se nos tivesses dito.
Que a espuma que o mar traz, é igual ao silêncio mágico do Sol,
quando canta com pássaros,
e a Lua guia os nossos barcos por entre as luzes suspensas no céu.

Se nos tivesses dito.
O quanto livres podem ser os pensamentos quando sonhados.
Acordando-te.
Tu que desconheces as incertezas.
Dos caminhos que não conseguimos percorrer.
Desconheces a esperança escondida nas palavras amargas,
com que fustigamos as pedras dos altares
em nossas desesperadas preces.

 Adoçamos a escuridão com o fogo crepitante na noite amada.
Com aromas de verbena e madressilva.
E quando acendemos a candeia sobre a mesa dos nossos nadas.
O rosto das crianças têm o chilrear das andorinhas.
O claro som das fontes.
Porque não sabem.
Não sabem que o linho,
fere os dedos e o peito antes de alvo e fino.

Se nos tivesses dito.
O que não disseste!

 A Dourada medida da nossa mão.
Quando ela se ergue entre os labirintos da memória.
 Avivando o que não sabemos lembrar.

A mesma que plantou uma Rosa feita de vento, nas encruzilhadas do tempo.
Onde navegamos confiantes á procura de nós.
Num rasgo de qualquer coisa por dentro da alma.

Se nos tivesses dito!
Que és feito do sopro da nossa voz.
Dos contornos da nossa carne.
Da inflamada paixão dos nossos corpos quando amamos.

Ainda assim.
Queremos acreditar,
Na impossível surdez dos teus ouvidos,
Na improvável loucura da tua existência.

Autor: O. Florência

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Jorge Amado e o neo-realismo português


Jorge Amado não é dos autores que se cite numa apresentação extensa, nasceu em 1912 na Baia, logo em 2012 faria 100 anos. Há um universo novelesco que faz com que nós tenhamos a impressão de que a obra de Jorge Amado nos é familiar, mesmo que não tenhamos lido os romances, porque nos lembramos de uma novela como Gabriela Cravo e Canela em versão original de 1983. Há até um certo universo baiano, um certo toque brasileiro de ser que nós julgamos ser de facto brasileiro, por termos visto novelas que partiam de enredos de romances de Jorge Amado, se nos lembrarmos de uma novela como Tieta do Agreste ou Roque Santeiro, aquele universo baiano do candomblé, das prostitutas e dos coronéis, dos jagunços ou dos pretos de loja, e aqui não há aqui qualquer conotação rácica, quando se diz “pretos de loja” é uma expressão baiana, moços de frete como nós dizemos aqui. A verdade é que há um interesse hoje pela literatura de Jorge Amado que faz com que ele seja o escritor brasileiro mais traduzido no mundo, está traduzido em 50 países.  

Jorge Amado curiosamente é dos raros caso que beneficiou em vida de um reconhecimento nacional e internacional, ele é o mais reconhecido dos autores brasileiros e esse reconhecimento vem com os seus próprios pares, o que é raro na literatura, quando João Ubaldo Ribeiro autor do romance “ Viva o povo brasileiro” que é hoje com certeza uma das figuras de proa do romance brasileiro, faz a devida vénia ainda em vida ao seu “mestre” Jorge Amado; quando nós temos uma aceitação critica e generalizada seja no Brasil seja em Portugal; quando na europa democrática ou na europa de leste, ele teve filiação marxista, pertenceu ao Partido Comunista Brasileiro até 1955 e recebe o Premio Estaline em 1954, há um reconhecimento de Jorge Amado que no bloco ocidental que no bloco do leste, a verdade é que, nós percebemos muito cedo a importância da figura, seja da figura humana, seja do escritor e da sua importância para as diversas literaturas. Chegou mesmo a ter um pacto com Pablo Neruda, de jamais escrever as suas memórias, um pouco porque quer ele, quer Pablo Neruda - Nobel da literatura em 1972, defendiam um bocado a ideia de que não era necessário fazer um livro de memórias ou explicar a obra do autor, porque a obra do autor se explica a si própria, a história de um poeta não tem biografia, a obra é a sua biografia. Jorge Amado não vai seguir esse pacto até ao fim, e em 1991 começa a escrever um dos seus livros mais interessantes “Navegação de Cabotagem” que é um livro de memórias, de memórias desconexas ou pelo menos sem fio narrativo.  

O interessante é ver que essa figura que é Jorge Amado, tem uma particularidade, que raras vezes é tida em conta, que é, não separou jamais a vida da literatura, nem a literatura da vida. Para se ter uma ideia, certa ocasião, em 1952, na Chequeslováquia quando pediram para se auto-retratar, ele disse uma coisa muito simples “era um escritor de romances sendo que os seus romances eram sobretudo histórias de putas e coronéis”. De facto, não era um intelectual que estivesse divorciado da vida, era antes um intelectual empenhado em condenar as grandes diferenças sociais, seja do universo baiano nordestino, seja em condenar nos anos 60 a ditadura brasileira.  

Quando dizemos, qual foi a influência de Jorge Amado no neo-realismo português, temos de fazer um ponto da situação. Hoje á distancia de mais de setenta anos o que é exactamente o neo-realismo português? Para um critico como o Castelo Cruz ou Eduardo Lourenço, o neo-realismo português deve duas coisas aquilo que é o neo-realismo social brasileiro, a primeira é um fundo trágico que Eduardo Lourenço identifica na poesia de Carlos Oliveira, no primeiro livro de Carlos de Oliveira “Turismo” é de 1942, que curiosamente nasce Baía em 1921 e vem com um ano de idade para Portugal. O nosso neo-realismo tem esta particularidade, vai reunir um certo lirismo um certo encantamento lírico ao socialismo brasileiro, na poesia vinda de um Ribeiro Torres ou de um Jorge de Lima, e no romance, leram com certeza “Gaibéus” ou “ Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos”, quando falamos desses romances nós percebemos quando Eduardo Lourenço nos fala de um “fundo trágico do neo-realismo português”, assim como há em Manuel da Fonseca, em Alves Redol, em Mário Dionísio. 
A segunda, é de 1960 em diante, em que se concentra num trabalho muito apurado e muito minucioso da palavra sobre a palavra, isto tem uma leitura relativamente explicável é que os nossos anos 60 seja na poesia seja no romance, são o único momento em que na literatura portuguesa há como que uma revisitação e ao mesmo tempo reactualização das lições, quer dizer que poetas como Carlos Oliveira, Jorge de Sena, Sofia de Melo Breyner, fins dos anos 40 á entrada dos anos 60, também eles vão apurar de certo modo, fazer com que o poema seja sobretudo trabalho de linguagem, trabalho estruturado da palavra, conferindo ao poema autonomia, e isto significa que um poeta como Carlos de Oliveira que esteve filiado desde 37 ao neo-realismo e que participa naquela colecção de poetas neo-realistas do Novo Cancioneiro, empreende um caminho de textualidade a partir dos anos 60 em diante ate ao fim da sua obra poética que é por volta de 1976. Este percurso é muito interessante porque dá conta em Carlos de Oliveira como noutros autores do seu tempo, dessa preocupação estrutural pela palavra, dessa preocupação que quase apetece dizer “mineral” sobre a palavra, qualquer coisa que acontece nos romances de Nuno Bragança, que acontece nos romances iniciais de Almeida Faria, em 1961 publica “Rumor Branco” que é um poema, é um romance epistolar, assim como será mais tarde “Cavaleiro andante”, ou a “Paixão”, que são romances em forma de carta, mas o que ressalta á vista é o trabalho metafórico, um trabalho energético, um trabalho sobre um texto. Esse trabalho textual e romanesco de construção de universos muito bem calibrados de personagens, está presente aquilo que é possível numa segunda fase de Jorge Amado, sendo ele de facto alguém que influência imenso a chamada geração de 37 portuguesa, a geração do neo-realismo.

A par desta evolução literária, podemos falar do papel político de Jorge Amado, ele foi de facto um militante comunista e para o neo-realismo português ele surge nos anos 30/40 como o intelectual empenhado. Mário Dionísio vai escrever logo em 1937 quer no jornal O Diabo, quer no jornal Sol Nascente, dois órgãos ligados ao neo-realismo português, duas longas recepções aos romances de Jorge Amado, e que romances? Todos aqueles romances da primeira fase de Jorge Amado que davam conta daquilo que é chamado “ heroísmo neo-romântico” ou “heroísmo baiano”.  
Jorge Amado veio a ser preso frente á Sede das Nações Unidas. O exílio obriga-o viver em Paris, Viena, Praga, conviveu como se sabe com Maria Barroso, Mário Soares, entre outros amigos portugueses, foi íntimo de Raul Solnado, Beatriz Costa, grande amigo de Alçada Baptista, José Carlos Vasconcelos e foi ainda amigo e correspondia-se com Pablo Picasso, Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir.

Falar de Jorge Amado no ano em que se ele estivesse vivo tinha 100 anos, é um bom motivo para pensarmos, e no nosso círculo de amigos fazermos esse trabalho de “traficância de cultura”,  chamar a atenção aos pais de adolescentes da importância da literatura, da história, da filosofia, perguntando assim em jeito de conversa de café, ou num jantar com amigos nossos, se a criança ou o adolescente que está ali connosco sabe quem foi Jorge Amado?

Autor: António Carlos Cortez
Poeta, crítico literário e ensaísta. Professor de Literatura Portuguesa

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Acordai

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

Na concentração/vigília de 21 de Setembro de 2012, um grupo coral criado semi-espontaneamente nos dias anteriores cantou Acordai, Música de Fernando Lopes-Graça e Letra de José Gomes Ferreira.  

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Calou-se a maior voz do fado de Coimbra


O cantor Luiz Goes, de 79 anos, uma das referências da canção de Coimbra, morreu esta terça-feira em Mafra.
Nascido em 1933, em Coimbra, Luiz Fernando de Sousa Pires de Goes licenciou-se em Medicina, tendo exercido a profissão de médico dentista em paralelo com a carreira artística.
Iniciou-se no fado por influência do tio paterno, Armando Goes, contemporâneo de Edmundo Bettencourt, António Menano, Lucas Junot, Paradela de Oliveira, Almeida d'Eça e Artur Paredes.

Manuel Alegre Portugal recordou que Luiz Goes «foi padrinho musical de Adriano Correia de Oliveira e José Afonso». Referiu ainda que Luiz Goes gravou na década de 1950 com os músicos Carlos Paredes, João Bagão e António Portugal o álbum «Serenata de Coimbra» que «é ainda hoje o disco português mais vendido».
O músico recordou que «na altura o Luiz Goes recusou um milionário contrato da gravadora Philips porque queria acabar o curso».

«O Luiz Goes representa para a música de Coimbra o que Amália Rodrigues representa para a música portuguesa», rematou Manuel Alegre Portugal.

O músico Rui Pato considerou que a morte do cantor Luís Goes deixa a canção de Coimbra de luto, pois era a melhor voz e o melhor intérprete dos últimos 50 ou 60 anos.
«É uma grande perda, era um grande poeta, um grande músico e um grande homem», sublinhou Rui Pato, acompanhante de vários destacados intérpretes da canção de Coimbra, entre eles o trovador José Afonso.
Recordou ainda «o grande amigo» e o homem, empenhado na cidadania e nos valores democráticos.
«Morreu a voz que simbolizava o Fado de Coimbra. É uma grande perda. Coimbra está de luto», acentuou.

Como autor, Luiz Goes assinou 25 fados e 18 baladas, dos quais se destacam «Fado da Despedida», «Toada Beira», «Balada da Distância», «Canção do Regresso», «Homem Só», «Meu Irmão», «Romagem à Lapa» e «É Preciso Acreditar», entre muitos outros.

Em 2002, assinalando os 50 anos da sua primeira gravação a discográfica EMI-Valentim de Carvalho reuniu a obra integral numa edição intitulada «Canções Para Quem Vier».


terça-feira, 11 de setembro de 2012

A voz da terra



Calem-se agora os ventos e todos os tormentos da minha alma. 
Calem-se!

Calem-se todas as angústias, 
e a voz da fera que construiu paredes para a Liberdade. 
Calem-se dentro de mim por um momento.
 
Agora! 
Só quero ouvir o voo da águia a tocar a clara luz das montanhas de onde vim! 
Só quero ouvir os passos dos caminhos que me trouxeram.
Quero apenas a alegria no coração dos Homens.

Só quero ouvir no meu peito a tua voz,
 ó Terra…
 onde lanço a primeira pedra e a semente de um sonho.
 Agora.

Auto: O. Florência

terça-feira, 10 de julho de 2012

Antigos e Novos Templários: duas realidades, uma só missão



Pobres Cavaleiros de Cristo do Templo de Jerusalém, Ordem do Templo, ou simplesmente, Templários. As suas origens são mais ou menos do conhecimento geral: como a própria designação escolhida indica, terão estado nos fundamentos que contribuíram para a criação dessa Ordem, Cristo e o Templo de Jerusalém. Esta premissa é praticamente incontestável, estando mais que demonstrada nos inúmeros escritos sobre a matéria, bem como na pedra dos locais por onde terão passado. O que terá levado nove cavaleiros a enveredar por esse caminho e mover as mais altas esferas do poder então vigente para levar avante a sua intenção, é outra questão que merece sem dúvida um desenvolvimento adequado e que não tem merecido um tratamento muito aprofundado por parte dos mais diversos investigadores que sobre ela se têm debruçado. O que terá levado esses cavaleiros aproveitando a entrada dos cruzados na cidade de Jerusalém pela Porta de Damasco em 1099, instalando-se no que restava do antigo Templo e fazendo uso exclusivo das suas antigas cavalariças, é assunto que por si só requer uma investigação dedicada e isenta, no sentido de se apurar o porquê da escolha desse local e a razão da permanência no mesmo, num quase absoluto sigilo, durante um período de cerca de nove anos. Certo é que esse punhado de cavaleiros procuraram então colocar-se sob protecção da Igreja dita Católica, dominante no espaço europeu e nas novas terras de Outremer entretanto conquistadas. Terão recorrido a um dos homens curiosamente na época bastante influente no seio dessa Igreja: Bernard de Clairvaux, aquele que viria a ser conhecido por São Bernardo e que não sendo oriundo de uma das designadas “ordens nobres”, seria no entanto dotado de elevados dotes de eloquência e capacidade de retórica, tendo desde cedo conquistado um lugar de destaque que lhe permitiu exercer influência em algumas importantes decisões. E uma das decisões em que participou, na sequência do pedido que lhe foi efectuado pelo pequeno grupo de cavaleiros que a ele se dirigiu, procurando ajuda para a formação da nova Ordem, foi a de colocá-los sob protecção da sua Igreja, formalizando esse acto através da atribuição de uma regra por si redigida e apresentada em 1128 no Concílio convocado pelo Papa Honório II e que decorreu em Troyes.

Mas existem vários aspectos da existência desta ordem que não se encontram devidamente esclarecidos. Presentes em praticamente todas as cruzadas, não terão no entanto participado, pelo menos activamente (como Ordem), na que foi movida contra os Cátaros (também designados por Albigenses), onde se celebrizou a infeliz sentença do então Legado do Papa Inocêncio III, que ao responder à pergunta do Comandante da força atacante relativamente ao destino a dar às mulheres, crianças e aos não Cátaros, terá ordenado, “matai-os a todos, Deus reconhecerá os seus”. E a cruzada das crianças? Que levou para a morte e escravidão cerca de 50.000 crianças que por serem puras teriam supostamente mais força no combate aos infiéis? E o que dizer da designada primeira cruzada (ou dos mendigos), juntando guerreiros, mulheres, velhos e crianças, que partiram ao encontro da morte, na resposta ao apelo de um louco que se dava pelo nome de Pedro o Eremita (não oficial, pois considera-se a 1ª oficial como consequência do Concílio de Clermont, convocado pelo papa Urbano II)? Estariam os Templários (como Ordem) de acordo com este tipo de situações? Certamente que não, pois o seu nome não aparece associado a nenhuma delas.

Uma outra questão, é a da esquadra do Templo, uma forma de projecção de força através do meio natural que é o mar. E não foi até hoje ainda bem explicado o que fazia em Calais (sim, também existe a teoria de La Rochelle), nas vésperas da detenção dos templários de França, quando supostamente deveria estar em Toulon, pronta a zarpar em caso de necessidade através do mediterrâneo levando os cavaleiros para mais uma incursão no Outremer das cruzadas. Igualmente, nunca se conheceu destino exacto das carroças, supostamente vistas a abandonar as instalações do templo de Paris na noite anterior à fatídica sexta-feira 13 de Outubro de 1307, em que foram detidos os templários de França e o Grão-Mestre Jacques de Molay (e a carga negativa ainda hoje associada a essa data não deixa de ser curiosa).

A ganância que terá movido o Rei de França, Filipe IV, com a colaboração do seu Chanceler, Guillaume de Nogaret, ao procurar apoderar-se dos bens dos templários, à semelhança do que já fizera em 1306 com os dos Judeus, terá no entanto sido potenciada por uma questão muito mais relevante, de tal forma que terá assegurado o apoio incondicional de Bertrand de Gouth, o Papa de Avignon, Clemente V. A detenção do Grão-Mestre tinha implicações muito graves, uma vez que o poder deste era imenso, só quase se comparando ao do próprio Papa, única entidade perante quem este respondia. O propósito inerente à celeridade que foi dada ao início dos interrogatórios, que terão sido conduzidos com o objectivo claro de obter a condenação de todos os Templários, abrindo assim caminho ao eventual assalto aos bens da Ordem do Templo, foi no entanto frustrado, uma vez que apenas foi conseguido o acesso (e não a posse) aos bens imóveis da Ordem. Descubra-se o destino das carroças que terão abandonado o Templo de Paris, verifique-se as rotas dos navios da esquadra do Templo, que certamente se dispersaram para que não fossem facilmente localizáveis, e certamente se encontrará uma boa parte daquilo que se costuma designar por tesouro dos templários.

Quanto ao principal motivo que levou à detenção e perseguição dos Templários, poder-se-á dizer que está intimamente ligado a uma descoberta que, em determinada altura estes terão feito. Uma terrível descoberta. Um dos grandes segredos dos Templários. Algo que não podiam de forma alguma aceitar. Uma traição, um erro, um engano. Algo que os afastou da “luz” vigente. Esta ter-se-á tornado no entanto na principal causa do seu fim, pelo menos na forma em que se apresentavam perante o mundo. A este facto não será estranha a sua recusa na veneração da imagem de Jesus na Cruz. Por esse motivo esse símbolo não estava presente nos seus templos. E também é um facto que após o seu fim como Ordem formalmente reconhecida pela Igreja dita católica, os seus templos não foram mais utilizados, com excepção daqueles entregues a outras Ordens ou entidades, mas sempre apenas após serem alvo de alterações. E assim se poderá compreender algumas das declarações patentes nos autos dos interrogatórios, arrancadas sob tortura pela inquisição.

Será importante recordar ainda aquelas que, de acordo com a tradição oral, terão sido as últimas palavras de Jacques de Molay na ilha de Paris, na fogueira onde foi queimado por ordem da inquisição em 18 de Março de 1314: “Papa Clemente... Cavaleiro Guillaume de Nogaret... Rei Filipe; Intimo-os a comparecerem perante o Tribunal do Juiz de todos nós dentro de um ano para receberdes o seu julgamento e o justo castigo. Malditos! Malditos! Malditos! Todos malditos até a décima terceira geração de suas raças!

Terá de facto existido um motivo principal que contribuiu de forma decisiva para o precipitar de todos os acontecimentos. Mas esse não será divulgado aqui. Ficam as pistas. A seu tempo, mais que não seja para que a justiça, a verdade e a dignidade sejam repostas, essa causa será de conhecimento de quem de facto esteja interessado em conhecê-la. Uma última pista: embora existam as mais diversas interpretações, será aqui de relembrar a inscrição deixada pelo abade Bérenger de Saunière na entrada da capela em Rennes-Le-Château: “Terribilis est locus iste” (“Este local é terrível”).

Autor: A. C. Costa