sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Acordai

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

Na concentração/vigília de 21 de Setembro de 2012, um grupo coral criado semi-espontaneamente nos dias anteriores cantou Acordai, Música de Fernando Lopes-Graça e Letra de José Gomes Ferreira.  

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Calou-se a maior voz do fado de Coimbra


O cantor Luiz Goes, de 79 anos, uma das referências da canção de Coimbra, morreu esta terça-feira em Mafra.
Nascido em 1933, em Coimbra, Luiz Fernando de Sousa Pires de Goes licenciou-se em Medicina, tendo exercido a profissão de médico dentista em paralelo com a carreira artística.
Iniciou-se no fado por influência do tio paterno, Armando Goes, contemporâneo de Edmundo Bettencourt, António Menano, Lucas Junot, Paradela de Oliveira, Almeida d'Eça e Artur Paredes.

Manuel Alegre Portugal recordou que Luiz Goes «foi padrinho musical de Adriano Correia de Oliveira e José Afonso». Referiu ainda que Luiz Goes gravou na década de 1950 com os músicos Carlos Paredes, João Bagão e António Portugal o álbum «Serenata de Coimbra» que «é ainda hoje o disco português mais vendido».
O músico recordou que «na altura o Luiz Goes recusou um milionário contrato da gravadora Philips porque queria acabar o curso».

«O Luiz Goes representa para a música de Coimbra o que Amália Rodrigues representa para a música portuguesa», rematou Manuel Alegre Portugal.

O músico Rui Pato considerou que a morte do cantor Luís Goes deixa a canção de Coimbra de luto, pois era a melhor voz e o melhor intérprete dos últimos 50 ou 60 anos.
«É uma grande perda, era um grande poeta, um grande músico e um grande homem», sublinhou Rui Pato, acompanhante de vários destacados intérpretes da canção de Coimbra, entre eles o trovador José Afonso.
Recordou ainda «o grande amigo» e o homem, empenhado na cidadania e nos valores democráticos.
«Morreu a voz que simbolizava o Fado de Coimbra. É uma grande perda. Coimbra está de luto», acentuou.

Como autor, Luiz Goes assinou 25 fados e 18 baladas, dos quais se destacam «Fado da Despedida», «Toada Beira», «Balada da Distância», «Canção do Regresso», «Homem Só», «Meu Irmão», «Romagem à Lapa» e «É Preciso Acreditar», entre muitos outros.

Em 2002, assinalando os 50 anos da sua primeira gravação a discográfica EMI-Valentim de Carvalho reuniu a obra integral numa edição intitulada «Canções Para Quem Vier».


terça-feira, 11 de setembro de 2012

A voz da terra



Calem-se agora os ventos e todos os tormentos da minha alma. 
Calem-se!

Calem-se todas as angústias, 
e a voz da fera que construiu paredes para a Liberdade. 
Calem-se dentro de mim por um momento.
 
Agora! 
Só quero ouvir o voo da águia a tocar a clara luz das montanhas de onde vim! 
Só quero ouvir os passos dos caminhos que me trouxeram.
Quero apenas a alegria no coração dos Homens.

Só quero ouvir no meu peito a tua voz,
 ó Terra…
 onde lanço a primeira pedra e a semente de um sonho.
 Agora.

Auto: O. Florência

terça-feira, 10 de julho de 2012

Antigos e Novos Templários: duas realidades, uma só missão



Pobres Cavaleiros de Cristo do Templo de Jerusalém, Ordem do Templo, ou simplesmente, Templários. As suas origens são mais ou menos do conhecimento geral: como a própria designação escolhida indica, terão estado nos fundamentos que contribuíram para a criação dessa Ordem, Cristo e o Templo de Jerusalém. Esta premissa é praticamente incontestável, estando mais que demonstrada nos inúmeros escritos sobre a matéria, bem como na pedra dos locais por onde terão passado. O que terá levado nove cavaleiros a enveredar por esse caminho e mover as mais altas esferas do poder então vigente para levar avante a sua intenção, é outra questão que merece sem dúvida um desenvolvimento adequado e que não tem merecido um tratamento muito aprofundado por parte dos mais diversos investigadores que sobre ela se têm debruçado. O que terá levado esses cavaleiros aproveitando a entrada dos cruzados na cidade de Jerusalém pela Porta de Damasco em 1099, instalando-se no que restava do antigo Templo e fazendo uso exclusivo das suas antigas cavalariças, é assunto que por si só requer uma investigação dedicada e isenta, no sentido de se apurar o porquê da escolha desse local e a razão da permanência no mesmo, num quase absoluto sigilo, durante um período de cerca de nove anos. Certo é que esse punhado de cavaleiros procuraram então colocar-se sob protecção da Igreja dita Católica, dominante no espaço europeu e nas novas terras de Outremer entretanto conquistadas. Terão recorrido a um dos homens curiosamente na época bastante influente no seio dessa Igreja: Bernard de Clairvaux, aquele que viria a ser conhecido por São Bernardo e que não sendo oriundo de uma das designadas “ordens nobres”, seria no entanto dotado de elevados dotes de eloquência e capacidade de retórica, tendo desde cedo conquistado um lugar de destaque que lhe permitiu exercer influência em algumas importantes decisões. E uma das decisões em que participou, na sequência do pedido que lhe foi efectuado pelo pequeno grupo de cavaleiros que a ele se dirigiu, procurando ajuda para a formação da nova Ordem, foi a de colocá-los sob protecção da sua Igreja, formalizando esse acto através da atribuição de uma regra por si redigida e apresentada em 1128 no Concílio convocado pelo Papa Honório II e que decorreu em Troyes.

Mas existem vários aspectos da existência desta ordem que não se encontram devidamente esclarecidos. Presentes em praticamente todas as cruzadas, não terão no entanto participado, pelo menos activamente (como Ordem), na que foi movida contra os Cátaros (também designados por Albigenses), onde se celebrizou a infeliz sentença do então Legado do Papa Inocêncio III, que ao responder à pergunta do Comandante da força atacante relativamente ao destino a dar às mulheres, crianças e aos não Cátaros, terá ordenado, “matai-os a todos, Deus reconhecerá os seus”. E a cruzada das crianças? Que levou para a morte e escravidão cerca de 50.000 crianças que por serem puras teriam supostamente mais força no combate aos infiéis? E o que dizer da designada primeira cruzada (ou dos mendigos), juntando guerreiros, mulheres, velhos e crianças, que partiram ao encontro da morte, na resposta ao apelo de um louco que se dava pelo nome de Pedro o Eremita (não oficial, pois considera-se a 1ª oficial como consequência do Concílio de Clermont, convocado pelo papa Urbano II)? Estariam os Templários (como Ordem) de acordo com este tipo de situações? Certamente que não, pois o seu nome não aparece associado a nenhuma delas.

Uma outra questão, é a da esquadra do Templo, uma forma de projecção de força através do meio natural que é o mar. E não foi até hoje ainda bem explicado o que fazia em Calais (sim, também existe a teoria de La Rochelle), nas vésperas da detenção dos templários de França, quando supostamente deveria estar em Toulon, pronta a zarpar em caso de necessidade através do mediterrâneo levando os cavaleiros para mais uma incursão no Outremer das cruzadas. Igualmente, nunca se conheceu destino exacto das carroças, supostamente vistas a abandonar as instalações do templo de Paris na noite anterior à fatídica sexta-feira 13 de Outubro de 1307, em que foram detidos os templários de França e o Grão-Mestre Jacques de Molay (e a carga negativa ainda hoje associada a essa data não deixa de ser curiosa).

A ganância que terá movido o Rei de França, Filipe IV, com a colaboração do seu Chanceler, Guillaume de Nogaret, ao procurar apoderar-se dos bens dos templários, à semelhança do que já fizera em 1306 com os dos Judeus, terá no entanto sido potenciada por uma questão muito mais relevante, de tal forma que terá assegurado o apoio incondicional de Bertrand de Gouth, o Papa de Avignon, Clemente V. A detenção do Grão-Mestre tinha implicações muito graves, uma vez que o poder deste era imenso, só quase se comparando ao do próprio Papa, única entidade perante quem este respondia. O propósito inerente à celeridade que foi dada ao início dos interrogatórios, que terão sido conduzidos com o objectivo claro de obter a condenação de todos os Templários, abrindo assim caminho ao eventual assalto aos bens da Ordem do Templo, foi no entanto frustrado, uma vez que apenas foi conseguido o acesso (e não a posse) aos bens imóveis da Ordem. Descubra-se o destino das carroças que terão abandonado o Templo de Paris, verifique-se as rotas dos navios da esquadra do Templo, que certamente se dispersaram para que não fossem facilmente localizáveis, e certamente se encontrará uma boa parte daquilo que se costuma designar por tesouro dos templários.

Quanto ao principal motivo que levou à detenção e perseguição dos Templários, poder-se-á dizer que está intimamente ligado a uma descoberta que, em determinada altura estes terão feito. Uma terrível descoberta. Um dos grandes segredos dos Templários. Algo que não podiam de forma alguma aceitar. Uma traição, um erro, um engano. Algo que os afastou da “luz” vigente. Esta ter-se-á tornado no entanto na principal causa do seu fim, pelo menos na forma em que se apresentavam perante o mundo. A este facto não será estranha a sua recusa na veneração da imagem de Jesus na Cruz. Por esse motivo esse símbolo não estava presente nos seus templos. E também é um facto que após o seu fim como Ordem formalmente reconhecida pela Igreja dita católica, os seus templos não foram mais utilizados, com excepção daqueles entregues a outras Ordens ou entidades, mas sempre apenas após serem alvo de alterações. E assim se poderá compreender algumas das declarações patentes nos autos dos interrogatórios, arrancadas sob tortura pela inquisição.

Será importante recordar ainda aquelas que, de acordo com a tradição oral, terão sido as últimas palavras de Jacques de Molay na ilha de Paris, na fogueira onde foi queimado por ordem da inquisição em 18 de Março de 1314: “Papa Clemente... Cavaleiro Guillaume de Nogaret... Rei Filipe; Intimo-os a comparecerem perante o Tribunal do Juiz de todos nós dentro de um ano para receberdes o seu julgamento e o justo castigo. Malditos! Malditos! Malditos! Todos malditos até a décima terceira geração de suas raças!

Terá de facto existido um motivo principal que contribuiu de forma decisiva para o precipitar de todos os acontecimentos. Mas esse não será divulgado aqui. Ficam as pistas. A seu tempo, mais que não seja para que a justiça, a verdade e a dignidade sejam repostas, essa causa será de conhecimento de quem de facto esteja interessado em conhecê-la. Uma última pista: embora existam as mais diversas interpretações, será aqui de relembrar a inscrição deixada pelo abade Bérenger de Saunière na entrada da capela em Rennes-Le-Château: “Terribilis est locus iste” (“Este local é terrível”).

Autor: A. C. Costa

quinta-feira, 14 de junho de 2012

O Homem e a Pedra

Do Monte da Lua ao Cabo da Roca


A ligação do homem com a pedra é tão antiga como a sua própria existência, foi no âmbito do sagrado que o homem teve o seu primeiro contacto com a pedra, pois a mesma deu-lhe acima de tudo e antes de tudo, a possibilidade de se ligar ao divino e também de perpetuar na história da humanidade, de "deixar escrito na pedra" os seus sonhos e medos, as suas vivências divinas e infernais, os seus actos de coragem, as suas conquistas e derrotas. 
Nascidas das profundezas da terra numa conjunção dos elementos primordiais, terra, ar, água e fogo, são a perfeita harmonia entre as leis terrenas e cósmicas. Símbolo da eternidade, que pela sua natureza ultrapassa, transcende, vai além do tempo humano. 
As pedras são assim verdadeiros lugares de memória, pontes talhadas entre o céu e a terra, e que se nos libertarmos dos atilhos racionalizantes, esses lugares quase que nos transportam do profano para o sagrado no mais íntimo de nós. 
Os aglomerados naturais de pedras, outros construídos pela mão do homem, determinaram o seu uso como locais de culto ao sol e à lua e a outras divindades tão antigas das quais nem sabemos o nome, como mencionou Estrabão, historiador, geógrafo e filosofo grego, que estes povos "ofereciam sacrifícios a um deus sem nome e dançavam toda a noite nas fases da lua cheia".

A Serra de Sintra pela sua forma de "ventre materno" e simultaneamente serpentino, deu lugar ao culto da deusa pré-histórica lunar, ligada ao ciclos da fecundidade, assim como a cultos ofiliátricos de morte e renascimento, não é ao acaso que este promontório fosse designado por Evieno de Cabo de Ofiúsa. 
Do Monte da Lua (Sintra) ao Cabo da Roca, desde os tempos pré-históricos à dominação romana existem vestígios de cultos astrolátricos, Sol e Lua, assim como também a divindades saturnianas mais específicamente no Cabo da Roca. A sua importância geográfica não deixou de suscitar interesse pelos marinheiros fenícios que por ali passaram, e que assim (re)sacralizaram aquele local, havendo largas hipóteses de ali terem erigido um templo a Ishtar-Astarte complemento feminino de Baal/Saturno, protectora dos marinheiros e viajantes, venerada em templos situados em montes e falésias, e o deus Baal, título que significa "Senhor", e que simbolizava o princípio masculino da luz, do fogo, da fertilidade e da renovação, muitas vezes representado por um touro que lhe era sacrificado, o que não deixa de ser interessante. Ainda não inteiramente comprovado arqueologicamente, embora haja fortes indícios que está relacionado com o Cronos/Saturno, por certo nas imediações do Santuário da Peninha tenha existido outrora um local de culto a Baal/Saturno, e que cuja memória se encontra reduzida a uma humilde e abandonada Ermida – Ermida de S. Saturnino. 
Tais santuários parecem emergir da terra como olhares apontados ao infinito, perfeitos centros de ligação da terra ao cosmos.

Fazer estes caminhos é ir ao encontro dos momentos primordiais que o homem teve com o divino como centro das suas vidas e vivências. O ceú na sua transcendência e eternidade, o Sol que se erguia no horizonte simbolizando a soberania, a luz e a vida, marcando o tempo com os Equinócios e Solstícios. A luz que se extinguia para dar lugar á noite, onde surgia a Lua como possibilidade de renascimento mediante as suas fases, a vegetação circundante, fecunda e abundante. Tudo isto lhes revelava o mistério da Vida e da Criação. 
Nesses locais estão os "caminhos" idealizados de outrora que á distância da nossa mão e através do olhar podemos sentir e perceber os mitos, ritos e lendas onde as pedras intervêm. 
O homem evoluiu e a forma de trabalhar a pedra também. Mas, o homem não deixou de ser homem, nem a pedra deixou de ser pedra. A busca do sagrado continua, mesmo que implícita, a busca de ontem é talvez a mesma de hoje. De onde viemos e para onde vamos, pois não existe presente sem passado, nem futuro se não soubermos as duas coisas. Por isso, todo o homem procura o seu lugar. A sua Pedra.

Autor: O. Florência 

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Mosteiro dos Jerónimos


Do local onde actualmente se encontra o Mosteiro dos Jerónimos, como vulgarmente é conhecido, partiram as primeiras naus para os empreendimentos marítimos, nomeadamente para a Índia e Brasil. A praia do Restelo abria-se em pequena enseada, constituindo um bom local de abrigo de barcos. Neste porto, a actividade era extensa, uma vez que era um local de artesanato e comércio, constantemente visitado por mareantes. A população que ali morava não dispunha de cemitério, e faltava aos fiéis um lugar de culto. Foi neste local que o Infante D. Henrique mandou erguer uma igreja e um pequeno cenobício da Ordem de Cristo, para prestarem então assistência espiritual aos mareantes e à população ai fixada.
D. Manuel I, imediatamente depois de ser coroado em 1495, ordenou a edificação de um mosteiro neste mesmo lugar, 46 anos após a morte do Infante D. Henrique. Os cavaleiros da Ordem de Cristo cederam então a igreja, casas e terrenos à Congregação dos Jerónimos com a obrigação destes celebrarem missa diária em sufrágio do infante D. Henrique, e depois, do rei D. Manuel I e de seus sucessores. Na igreja monástica queria ainda o rei ser sepultado.

O Mosteiro dos Jerónimos, obra fundamental da arquitectura manuelina, teve o risco inicial de Boitaca (1502), que lançou os fundamentos da Igreja e do Claustro, e cuja campanha de obra inclui o arranque do portal principal, tendo igualmente deixado marca indelével neste monumento mestres-pedreiros-arquitectos, como João de Castilho (c.1475-1552), Diogo de Torralva (c. 1500-1566) e Jerónimo de Ruão (1530-1601).
As razões que teriam levado D. Manuel I a substituir a Ordem de Cristo pelos Monges Jerónimos integraram--se decerto numa estratégia política ou jogo de correlação de forças. A predilecção de D. Manuel I pelos frades Jerónimos ficaria bem assinalada no grande apoio concedido a diversas fundações.
Além de Santa Maria de Belém, D. Manuel I e D. João III (1521-1616) acrescentariam novas casas à expansão dos Jerónimos. Esta instituição fundara-se no século XIV, em Itália, aglutinando grupos dispersos de eremitas inspirados nos textos do asceta S. Jerónimo (séculos IV-V), um dos quatro Doutores da Igreja Ocidental. Vieram os primeiros Jerónimos para a Península Ibérica ainda no século XIV e entre nós beneficiaram do apoio de D. João I, que para eles comprou a quinta da Penha Longa e mandou ali erguer um mosteiro de onde sairia o grupo que deu vida ao de Belém. Notabilizaram-se os frades de S. Jerónimo por um extraordinário labor cultural, registando a nossa História nomes de grandes mestres dessa Ordem em diversos campos.
D. Manuel I doou ao mosteiro em 1499 o vultoso benefício da cobrança da vigésima parte do ouro que viesse da Guiné, a «vintena da pimenta», e das especiarias e pedrarias da Índia, caudal que não só sustentaria desafogadamente a comunidade e as suas iniciativas culturais e benefecientes, como, de imediato, deu para contratar os melhores mestres e custear toda a despesa da edificação.
D. Manuel I, entretanto, ia alterando o programa original da obra, querendo agregar ao mosteiro uma residência régia ocasional. A morte do rei em 1521 terá afastado essa ideia. Uma outra função, empresarial, seria a de armazém da provisão de navios a instalar na extensa galeria do piso térreo da ala poente, de arcaria aberta a sul. D. Manuel I quis também fazer da igreja panteão real, para si e para sua linha sucessória, tornando-se, em consequência, apenas permitidos enterramentos régios no interior do templo.
Obras posteriores vieram modificar o edifício. D. Catarina, viúva de D. João III, mandou demolir a capela-mor, por ser pequena, e construir a que conhecemos. Nas épocas de D. Sebastião, dos Filipes de Espanha, de D. Pedro II e de D. João V, foram introduzidos novos elementos de modernização, especialmente decorativa.

Em 1584, Filipe II retirou ao Mosteiro dos Jerónimos o citado rendimento dos 5% sobre alguns produtos ultramarinos, o que conduziu ao início das dificuldades financeiras. Estas, continuariam no tempo de D. João V, decaindo a importância do mosteiro e acentuando-se a carência de meios materiais. Os problemas conflituosos agravaram-se com o governo do Marquês de Pombal, levando os frades a buscar novas (e mais escassas) fontes de subsistência, como o aluguer da galeria-armazém à Tanoaria Real, à Alfândega de Lisboa e a armazéns de produtos das terras encontradas, e também o fabrico e venda de pastéis de nata (cuja fama se mantém), etc. O Estado negava direitos ao mosteiro, apossava-se dos seus haveres, a Real Junta da Marinha instalada nas arcadas não pagava rendas desde 1763, as tropas inglesas e o Hospital Militar Britânico durante cinco anos aquarteladas nas galerias superiores do claustro, para o que foram entaipados os arcos, danificaram muito o mosteiro e não havia dinheiro para reparações. Definhavam os estudos e a vida espiritual e moral do convento.
Extinto pelo governo liberal em 1833, o mosteiro foi incorporado na coroa, tornando-se nova instalação do instituto educativo fundado por Pina Manique, a Casa Pia, passando a igreja a sede de paróquia. O valiosíssimo recheio do mosteiro praticamente desapareceu, tendo uma grande parte sido destruído.

Desde sempre intimamente ligado à casa Real Portuguesa, o Mosteiro dos Jerónimos, pela força da Ordem e suas ligações a Espanha, pela produção intelectual dos seus monges, pelo facto de estar inevitavelmente ligado à epopeia dos Descobrimentos e, inclusivamente, pela sua localização geográfica, na capital, à entrada do porto, é cedo interiorizado como um dos símbolos da nação lusa.
Inclui, entre outros, os túmulos dos reis D. Manuel I e sua mulher, sua filha D. Maria, D. João III e sua mulher D. Catarina, D. Henrique e ainda os de Vasco da Gama, de Luís Vaz de Camões, de Alexandre Herculano e de Fernando Pessoa.
Declarado Monumento Nacional em 1904, passou a “Património Cultural de Toda a Humanidade” em 1984, por declaração da UNESCO.
Os Claustros do Mosteiro dos Jerónimos foram o palco da assinatura do tratado de adesão à ComunidadeEuropeia, em 1986, sendo simbolicamente escolhidos para expressar que ser europeu não implica a perca da identidade portuguesa.

Autor: A. Pires
Adaptacão de vária literatura e consulta internet

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O Convento da Ordem do Carmo


O Convento da Ordem do Carmo, monumento edificado no século XIV, ergue-se no Monte do Carmo, com cabeceira em posição destacada sobranceira ao Rossio e fronteira ao Castelo de S. Jorge. Começou por ser um convento carmelita, hoje, é a sede da Associação dos Arqueólogos Portugueses e também museu arqueológico.

De traço gótico, a igreja segue o modelo das construções mendicantes do século XIII, mas já de influência do Mosteiro da Batalha. A planta é em cruz latina, de três naves e cinco tramos, tem cabeceira com capela-mor saliente e de maior altura, ladeada por quatro absidíolos poligonais escalonados, o que constitui uma variante do modelo da Batalha e evolução do modelo das cabeceiras das igrejas mendicantes mais importantes. Manifesta ainda influência batalhina nos dois andares da capela-mor e na decoração vegetalista de duas filas nos capitéis, nítido neogótico romântico na forma híbrida dos pilares da igreja. As janelas da capela-mor são baixas e mal proporcionadas, contrastando com a elegância das frestas dos absidíolos. 
Nas obras do convento trabalharam os artificies Lourenço Gonçalves, Estêvão Vasques, Lourenço Afonso e João Lourenço e alguns operários de origem judaica, como Judas Acarron e Benjamim Zagas. Das antigas dependências conventuais subsiste o claustro, de planta rectangular, o refeitório, hoje dividido em dois pisos, a sacristia, de planta rectangular e coberta por cruzaria de ogivas, e uma torre sineira robusta. 
Segundo a tradição, foram construídas na cerca do convento celas provisórias para acolher os freires vindos do Mosteiro de Moura. Afonso Dornelas supõe-nas de pequeníssimas dimensões, divididas umas das outras por paredes de adobe, formando pequeno quadrado com claustro ao centro. A cela que formava o ângulo das duas alas de celas era a de Nuno Álvares Pereira e ficou conhecida como "Casa do Século". Esta situava-se, portanto, junto à "Porta do Carro", sensivelmente correspondente hoje ao lado direito da entrada do túnel que dá acesso ao quartel da GNR.

O convento foi mandado construir em 1389 pelo Condestável D. Nuno Álvares Pereira, em terrenos adquiridos ao almirante Pessanha e à irmã do Condestável, D. Beatriz, obtendo licença papal de Urbano VI. O solo arenoso e a escarpa instável levaram ao desmoronamento dos alicerces por duas vezes, obrigando D. Nuno a dizer que se os alicerces caíssem de novo haviam de ser de bronze. Em 1392, o Condestável convidou os frades carmelitas de Moura a ingressarem no convento.
Em 1404, D. Nuno Álvares Pereira doou ao convento o seu património e, mais tarde, professou na ordem dos carmelitas e doou-lhes o convento. Em meados do século XVI, o convento tinha a renda de 2 000 cruzados e albergava 70 frades e 10 servidores. Nos finais do século XVII, durante as guerras da Sucessão, os monges tentaram ajudar D. António, Prior do Crato, nas suas pretensões ao trono. 
Devido ao terramoto de 01 de Novembro 1755 ficou em ruinas, não tendo sido reconstruído, constitui-se num dos principais testemunhos da catástrofe visíveis na cidade.

Actualmente as ruínas abrigam o Museu Arqueológico do Carmo. O corpo principal da igreja e o coro, cujo telhado resistiu ao terramoto, foram requalificados e abrigam hoje um Museu Arqueológico com uma pequena mas interessante colecção. 
Do paleolítico e neolítico português destacam-se as peças provenientes de escavações de uma fortificação pré-histórica perto de Azambuja. 
O núcleo de túmulos góticos inclui o de D. Fernando Sanches, início do século XIV, decorado com cenas de caça ao javali, e o magnífico túmulo do rei D. Fernando I, transferido de um convento em Santarém para o museu. Destaca-se também uma estátua de um rei do século XIII, talvez D. Afonso Henriques, além de peças romanas, visigóticas e até duas múmias peruanas.
 
O conjunto, que já foi a principal igreja gótica da capital, e que pela sua grandeza e monumentalidade concorria com a própria Sé de Lisboa, ficou em ruínas no terramoto de 1755. É possível que a ruína do Convento do Carmo e do vizinho Convento da Trindade, aquando daquele terramoto, esteja na origem da expressão popular "Cair o Carmo e a Trindade".

Autor: A. Pires

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A origem da língua portuguesa


Cumpre aos linguistas propor hipóteses explicativas da origem duma língua, tanto nos seus aspectos morfológicos quanto sintácticos, entendendo pelos primeiros o modo como as palavras se pronunciam e se escrevem, analisando os segundos o modo como se entrelaçam na frase, inclusive possibilitando, dessa forma, alguma mudança de significado – pois também aqui o contexto desempenha papel relevante. 

O sugestivo e bem eloquente relato bíblico da Torre de Babel (Génesis 11, 1-8) explicita que todas as línguas brotaram dum tronco comum. No que respeita ao Ocidente, dessa base têm partido os linguistas, ao considerarem o indo-europeu essa base donde tudo partiu. 
Ao embrenhar-me no tema das divindades indígenas, pré-romanas, na mira de, através da análise etimológica dos teónimos, lhes determinar atributos e funções, à Linguística tive, pois, de recorrer. Um emaranhado de sugestões – adiante-se desde já – porque se lida com vocábulos fruto de longa evolução, cujo som e respectiva representação gráfica algo terão, necessariamente, de aleatório. 
Uma convicção perfilho, hoje: o do importante papel da oralidade e da convivência. A transposição escrita do que se ouve está sujeita a inúmeras contingências (recorde-se o caso da senhora que se chama Prantilhana…); e não vale a pena, por isso, digladiarmo-nos por causa dum e ou dum i. A própria pronúncia da mesma palavra assume tonalidades diferentes, inclusive no Português, que é uma das línguas consolidadas há mais tempo no Ocidente europeu. Virá a talhe de foice recordar que, em relação ao Latim, há três possíveis pronúncias para, por exemplo, o nome Cicero: a (dita) restaurada, a ‘portuguesa’ e a romana!... 

Derivado, sem dúvida, do Latim, o Português acolheu de boamente contributos do Grego, do Árabe, do Visigótico… e, já nos nossos dias, consignados no Dicionário da Academia, termos próprios de outros países europeus, do Brasil e dos PALOPS (daí, a ideia peregrina do tal acordo ortográfico…). 
O lugar e o tempo constituem, consequentemente, coordenadas a ter em conta, mormente se pensarmos que, apesar de termos apenas duas línguas oficiais – o Português e o Mirandês – há ainda o barranquenho, o minderico e – porque não? – o falar algarvio, o falar gandarês…. 
O Brasil poderá ser também motivo de sugestiva análise, se atentarmos que, logo no aeroporto, quando chegamos, deparamos não com a indicação «tapete» mas o classicíssimo «esteira»; e a nossa ‘fotocópia’ é… xerox! A simbiose perfeita entre o conservadorismo vernáculo e a adopção sem peias do neologismo preciso. 

Qual a origem da língua portuguesa, portanto? O Povo que desde há muito séculos a fala, em épocas e em lugares precisos. Uma origem que não devemos, por consequência, considerar estática nem no tempo nem no espaço – porque… está viva! E amadurece todos os dias!

Autor: Prof. Dr. José D'Encarnação

terça-feira, 1 de maio de 2012

Rito da fertilidade


No dia 1 de Maio o Sol “astrologicamente” encontra-se em Touro, e o Touro marca a morte do Inverno, o nascimento da Primavera, o retorno do Sol do “Deus Sol”. Este festival de raízes celtas Beltane deriva ainda de um antigo festival Druida, festival do Fogo, ambos celebram a união da Deusa ao Deus, da Lua ao Sol. Assim, se celebrava o chamado casamento sagrado, era escolhida uma sacerdotisa e um sacerdote para esse fim e era dada força aos poderes da Luz e da nova Vida que dançavam e se moviam através de toda a criação. Nestes rituais acendiam-se fogueiras, os chamados Fogos Sagrados de Beltane desde a noite anterior para indicar o caminho para o retorno do Sol, as trevas terminavam aí, a Roda da Vida girava para a Luz. Embora chamem as estas festividades cultos lunares elas sempre seguiram o ritmo do Sol. 
Ainda, interessante é que Mitra era um Deus Solar e o Touro era o seu símbolo, a morte sacrificial do Touro que neste caso representaria a Lua, talvez simbolizasse o vencer da Luz sobre as trevas, isso permanece um mistério. 

Em volta destes ritos lunares/solares, pois uns não existem sem o outro haveremos de falar melhor e mais pormenorizadamente, dado ser crente que dentro de cada um de nós se sente as tais "forças", das quais falaremos em breve. 

Autor: O. Florência

quarta-feira, 25 de abril de 2012

No dia em que Salgueiro Maia saiu à rua...

25 de Abril de 1974 - 25 de Abril de 2012 - 38 anos de Liberdade!


Foram dias, foram anos a esperar por um só dia.
Alegrias. Desenganos. 
Foi o tempo que doía com seus riscos e seus danos. 
Foi a noite e foi o dia na esperança de um só dia. 

Manuel Alegre



VITRIOL - ASSOCIAÇÃO PARA A DIVULGAÇÃO E PROMOÇÃO DA LÍNGUA E CULTURA LUSÓFONA