quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A VITRIOL entrevista João Rodil

João Rodil na entrevista em Sintra.

A Associação Vitriol foi a Sintra ao encontro de João Rodil, historiador, investigador na área de história, etnografia e literatura, com obras publicadas sobre a história da região de Sintra, partilhando os segredos que esta Serra sagrada encerra e tem-se dedicado ao longo de vários anos a esculpir uma outra montanha - a do imaginário dos homens, com o seu amor pela beleza da paisagem, património e cultura.
E, foi numa atmosfera de quase Outono, fim de tarde na “Vila Velha”, com um sol já tímido espreitando entre as folhas e um fresco vindo da Serra apelando a um chá quente e uma queijada, que se iniciou uma agradável conversa com João Rodil em que a Vitriol colocou algumas questões:

Vitriol – Para si, enquanto homem e historiador, que importância e significado tem Sintra?

João Rodil – Bom, Sintra, em primeiro lugar, é a minha terra. E isso tem um significado tanto maior quanto o amor que temos por ela. Ou seja, se dedicamos uma vida à terra amada, se vivenciamos, quotidianamente, a paisagem, os pergaminhos e os mistérios de Sintra, então quer dizer que a terra possui um lugar proeminente no nosso crescimento e desenvolvimento humano! Eu sinto-me parte integrante da geografia de Sintra e tenho a certeza de que Sintra faz parte do meu corpo.
Enquanto homem interessado pela História, Sintra é um verdadeiro livro aberto a muitos passados, a múltiplos segredos, um imenso caldeirão de culturas, de tolerâncias, de perspectivas estéticas e filosóficas. E bastaria isso para que eu me apaixonasse por Sintra, mesmo que não fosse autoctone. Mas Sintra é, também, um lugar com espírito, com um querer muito próprio, difícil de entender porque ora se esconde nas brumas, ora se revela num brilho espelendoroso que nos ofusca. Creio que para se penetrar verdadeiramente em Sintra, é necessário acreditar na sua transcendência…

Vitriol – O que acha que deveria ser feito para que as pessoas tivessem um maior e mais fácil acesso à cultura em Sintra?

João Rodil – Falta fazer tudo, e esse tudo é quase nada. Quero eu dizer com isto que, como a maior parte das pessoas, quando vêm a Sintra, trazem já com elas uma grande apetência cultural. Vem-se a Sintra para levar um banho de cultura. Ora, acho eu que bastaria aos políticos aproveitarem essa apetência pessoal, recebendo-as de braços abertos, promovendo os valores patrimoniais, os artistas de todas as estéticas e formas, proporcionando, enfim, um verdadeiro encontro cultural onde Sintra seria um imenso palco. Pode parecer utópico, mas Sintra tem condições, história e magia que baste para se tornar, sem grande esforço, num dos clusters culturais mais importantes do Mundo. Agora, é preciso vontade política… e paixão… e saber.

Vitriol – Com tantas figuras ligadas à História de Sintra, qual é aquela que tem mais peso para si?


João Rodil – Essa é uma pergunta difícil! É que eu não tenho uma personalidade preferida, tenho muitas e em várias épocas. Vamos ver, então se consigo limitar o rol, para não maçar muito. Na História, tenho que destacar a Rainha Santa Isabel e D. Dinis, ela por nos ter iniciado no Culto do Divino Espírito Santo e ele por ter sido «o plantador das naus a haver». Também acrescento a Ínclita Geração, com D. João I e D. Filipa à cabeça; o D. Afonso V, esse rei templário meu conterrâneo; D. Manuel I, sobretudo pelo amor que dedicou a Sintra e pela forma como lhe aumentou o património. E D. João de Castro, o vice-rei místico da Penha Verde, símbolo da honra e da nobreza lusa. Mas tenho que dar primazia a um rei estrangeiro, mais português que muitos portugueses: D. Fernando II, o príncipe da Baviera que fez de Sintra o cenário dos seus sonhos mítico-mágicos. Que misturou todas as culturas e todas as árvores do mundo e as plantou – árvores e culturas – no alto da Serra da Lua, a dizer-nos que é essa a nossa grande bandeira, a da tolerância cultural, étnica e religiosa.

Na Literatura, ainda a minha lista é maior. Dói-me o coração só de pensar que vou ter que reduzi-la. Bem, começo pelo Mestre, Gil Vicente, o poeta que melhor cantou a mitologia dos portugueses. João de Barros, aquele mesmo que nos contou a «Crónica do Imperador Clarimundo». Camões, o amor e a saudade que o ligou a Sintra; Frei Heitor Pinto, o grande clássico preso e assassinado por Filipe II de Espanha, que na hora da prisão lançou aos castelhanos o fogo mais sincrético da alma lusitana, dizendo: «Pode D. Filipe meter a mim em Castela. Não pode meter Castela em mim.»
E que dizer de Garrett, de Herculano, de Camilo? Tanta coisa, tantos versos, tanta veneração por Sintra. E Ramalho, Antero e Eça de Queirós, com as suas peregrinações a Sintra, e páginas belíssimas da nossa Literatura dedicadas a esta terra. E Teixeira de Pascoaes, o poeta do saudosísmo, único movimento filosófico genuinamente português; Mário Beirão, Afonso Lopes Vieira e tantos outros que o acompanharam. E depois Fernando Pessoa e os seus encontros secretos com Alister Crowley; e, sobretudo, Almada Negreiros, esse «menino com olhos de gigante» que tão bem soube cantar os mistérios de Sintra. É melhor parar por aqui, ou corro o risco de nunca mais parar…

Vitriol – Qual é o seu sonho como português?


João Rodil – O meu sonho, e não será só o meu, é que Portugal se cumpra! É o que falta, como diz o Pessoa. Repare, nós fomos o país que levou a Europa ao Mundo e que trouxe o Mundo à Europa. E agora (nos últimos trinta e cinco anos) que fazemos (faremos?) parte da Europa, andamos meio perdidos, sem rumo definido, sem sabermos muito bem qual é o nosso papel nesta nova cena dramática que é a União Europeia. Ou seja, nós que transportámos a Europa às costas, andamos agora às cavalitas da Europa.

Apenas em um momento – um, apenas – e esporadicamente e de forma breve e frouxa e mais dois ou três, Portugal se cumpriu nestes últimos anos. E esse momento único foi na luta nacional, que soubemos transformar numa luta global, pela independência de Timor. E aí, fomos inteiros, fomos nós, iguais aos portugueses dos Descobrimentos. É que se há alguma coisa em que somos bons é nesta coisa de levar e trazer, de negociar, ou melhor, de dialogar e colocar os outros em diálogo. Por isso, acho que o grande papel de Portugal no Mundo de hoje é diplomático. E para desempenharmos bem esse papel é preciso que sejamos todos embaixadores dos valores que nos definem a alma, e que tenhamos a consciência plena daquilo que somos e quanto valemos. Então, só então, Portugal se cumprirá.

Autor: O. Florência